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O encontro com a morte: a do cão de infância

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A tragédia da minha adolescência coincide com a do Governador Divaldo Suruagy (1937/2015): a morte do vira-lata Pinote, atropelado pelo ônibus número 23 da Empresa Expresso Santanense, que fazia a linha Maceió-Penedo, cortando a cidade de Junqueiro através da BR-101, na localidade Engenho Cambuí. O governador tinha essa peculiaridade da afabilidade e registrou em suas crônicas no extinto Jornal de Alagoas, coligidas no livro ?Critérios de vida?, esses instantes inerentes aos comuns: ?A maior tragédia da minha adolescência foi a morte, por atropelamento de automóvel, do cachorro Dorly, que papai havia nos presenteado. Enorme, branco, com manchas pretas, era lindo e valente. Tínhamos verdadeira adoração por ele. Senti ganas de matar o motorista. Todos os nossos colegas compareceram ao funeral. O corpo repousou perto de um cajueiro todo florido. Naquele momento, jurei e cumpri, jamais criaria nenhum outro animal.? Pinote era galego, magro, alegre, inteligente, sabido, valente, e meu amigo leal. Corríamos pela estrada do engenho na maior felicidade. Atravessavamos a Mata Atlântica para levar almoço a meu pai nos cercados do gado e certa vez ele desafiou uma raposa. Era comezinho: nunca se aproxime de raposa choca. Meu encontro inicial com a morte foi trágico. Atropelado Pinote, jaz no asfalto da rodovia. Corri para salvá-lo. Inútil. Reconheceu-me e a cauda me saudou. Despediu-se. Partiu. A vida já não estava. Apenas o corpo. Espero tenha morrido envolto no sonho da cachorra Baleia em ?Vidas Secas? na hora última: correndo comigo pelas estradas das redondezas. Chorei. Seria capaz de destruir o veículo e como o governador desejei matar o motorista por sua inércia. Jamais esqueci a angústia em tentar atraí-lo para fora da rodovia. Meu cão teria de ter sido salvo. Mamãe cultivava animais: cães, gatos e pássaros sem limite. Os cães, um por vez: Tubarão, que como a cachorra Baleia de Graciliano Ramos, teve que ser sacrificado: adoeceu por raiva. Muito criança, adorava o cão gordo, branco e solícito. Seguindo a vida chegou Pinote, miúdo, vivaz e muito inteligente. Morreu pela vida que se esgotou. Outro vira-lata de mesmo nome o substituiu, de que falo especificamente. Posteriormente, Pery, cinzento, camarada e muito valente. Continua valendo a sabedoria do Presidente Roosevelt(1882/1945), : ?você quer um amigo em Washington, tenha um cão?. E foi o que ele cultivou com o cão ?Fala?. Tornou-se famoso e associado à sua imagem. A tragédia da morte me alcançou cedo demais para vislumbrar seu significado. Talvez tenha razão, a escritora Toni Morrison, recentemente falecida, no discurso de recepção do Prêmio Nobel: ? ... nós morremos. Esse pode ser o significado da vida. Mas nós fazemos linguagem. Essa pode ser a medida de nossas vidas?!

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