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Opinião

O bom soldado

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Aos 18 anos, prestei serviço militar no famoso Tiro de Guerra de Palmeira dos Índios. Era obrigatório e dificilmente os jovens de então, até aqueles considerados filhos de pais influentes - o que não era o meu caso ? escapavam desse dever cívico para ter acesso ao certificado de reservista, comprovando seu alistamento militar. Sem ele, o cidadão não pode trabalhar como funcionário público, tirar passaporte ou as demais documentações necessárias para o exercício de suas atividades. Nunca me arrependi e nem reclamei das madrugadas mal dormidas, das frias manhãs vestindo camisa regata branca e calção verde para longas corridas e atividades físicas; dos acampamentos em regiões de difícil acesso; treinamentos de tiro já com o poderoso fuzil Fal, usado pelos militares do Exército Brasileiro a partir de 1964. Quando a gente é adolescente escuta muitas histórias ?cavernosas? sobre a obrigatoriedade de servir ao Tiro de Guerra de sua cidade, pela dureza da missão. Principalmente quando o instrutor é um daqueles elementos radicais, estúpidos, insensíveis que fazem da farda um manto protetor para descarregar suas frustrações enrustidas. Prática comum nas atividades cotidianas da vida, onde sempre tem um mal-humorado para humilhar e tratar com desdém seus subordinados. Hoje chamaríamos de abuso de poder. O comandante da nossa turma era o Sargento Perpétuo, soldado digno de vestir farda verde-oliva do nosso Exército, pela sua postura de disciplinador, exigente, mas, acima de tudo, um grande ser humano. Ao olhar nos olhos de cada um dos seus comandados, parecia ler sentimentos, não privilegiava ninguém, incluindo os que eram mais avançados nos estudos e que, naturalmente, se destacavam pela liderança. Era tolerante e respeitador com os mais humildes e exigia da tropa um tratamento leal entre todos, sem distinção. Não tenho dúvidas dos muitos ensinamentos humanitários que o Sargento Perpétuo deixou para as diversas turmas que comandou até quando foi promovido a uma patente mais graduada, sendo transferido para o Pará. Ele era o oposto do capitão escalado pelo 59º Batalhão de Infantaria Motorizado de Maceió para fazer a primeira inspeção de avaliação do desempenho dos recrutas. Palavrões, grosserias, arrogância. Não tinha constrangimento em subir com seu coturno brilhante de graxa sobre as costas dos que faziam apoio no treinamento físico. Um grito: ?Não enrola, soldado?! Por ironia do destino, fui vítima desse afago! Estávamos na efervescência do Golpe Militar e o espírito da maioria de estrelados era ?faca nos dentes?, ?soltando fogo pelos olhos?. Para que essa ?macheza? toda se ali estava apenas um grupo de jovens inexperientes - talvez uns sessenta? Nem sabíamos direito o que era um comunista, que eles tanto odiavam... Um soldado de boa índole, conciliador, humano e solidário com os companheiros em breve deverá ser um grande oficial no seu quartel. Sem perder as características de líder, disciplinador e equilibrado nas atitudes. Um bom oficial para ser um grande comandante não cultua autoritarismo, não persegue quem discorda de suas ideias, não incita a violência e, muito menos, é carrasco dos seus inimigos. Respeita para ser respeitado como autoridade superior.

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