Opinião
Nina
Quando eu a comprei, Nina era apenas um filhote peludo e fofo, quase um bichinho de pelúcia. Empolgado com o livro ?Marley e eu? e com o filme nele inspirado, satisfiz a minha vontade de possuir um labrador amarelo, certo de que, com a boa criação que eu lhe daria, aquela criaturinha jamais seria tão estabanada quanto o seu famoso irmão de raça. Lêdo engano. Bastou ela chegar em minha casa e logo a nossa rotina deu um giro de trezentos e sessenta graus, a antiga calmaria dando lugar à agitação própria de quem passa a conviver com um raio em forma de cachorro. Móveis roídos, vizinhos e parentes derrubados, calçados comidos, paredes escavacadas, montes de cocô nos lugares mais improváveis ? com tudo isso nós fomos obrigados a nos acostumar à medida que Nina crescia, forte e saudável, cercada dos nossos cuidados e do nosso amor. Amor, aliás, que ela nos devolvia em forma de lambidas molhadas e quentes, com aqueles litros de baba que eram o terror das mulheres arrumadas, ou por meio das suas patas sempre sujas que manchavam de imediato a mais limpa das roupas, isso quando não lançavam ao chão algum desavisado que não estava pronto para receber uma saudação de mais de quarenta quilos. Mas essas estripulias eram praticadas com tão espontânea alegria e com tamanha docilidade que, passado o susto inicial, ninguém ficava vivamente contrariado quando Nina cruzava o seu caminho, e dali a pouco todos já estavam querendo fazer-lhe um afago, correr com ela ou tê-la aos pés, ofegante e atenta ao mínimo movimento que se fizesse. Foi assim durante quatorze anos. Nos últimos meses, já uma senhora idosa e alquebrada, enxergava mal e tinha dificuldades para levantar-se, embora conservasse em seu olhar a mesma ternura e a mesma meiguice que sempre me encantaram. Domingo passado despediu-se de mim: comeu um pouco do cuscuz que lhe dei, abanou a cauda quando lhe fiz um carinho, acompanhou-me por entre as plantas e depois sumiu ladeira abaixo, na direção do pequeno açude onde ela nadava, feliz, abocanhando os girinos. Somente horas depois é que foi encontrada pelo Zé Rapadinho, deitada ao pé da cerca, na serenidade do sono eterno. Chorei quando recebi a notícia, digo e não peço segredo. Sou-lhe grato, muito grato, por tudo o que vivemos juntos ao longo desse tempo. Creio que agora ela está com a Preta, fazendo bagunça no céu e enlouquecendo os anjos com a sua carreira desabalada, desarrumando as nuvens e testando a paciência de São Francisco. Se Deus um dia permitir que eu chegue por lá, espero encontrá-la no portão de entrada, latindo bem alto como fazia sempre que me via.