Opinião
Cadê minha dedeira?

Sempre à noite ou aos domingos e feriados, ao retornamos da missa na Igreja Matriz, na cidade de Viçosa, nos reuníamos para cantar, com papai dedilhando o seu violão. Ele colocava aquele instrumento nas pernas grandes e fortes e entoava músicas românticas repletas de melodia e sinceridade. Possuía uma voz firme, estridente, natural para o seu porte de sertanejo. Posicionávamos ao seu redor, naquela varanda imensa, com um piso de tijolo rústico, cada um arrastando a sua cadeira para um local mais próximo do artista, formando quase sempre um barulho ensurdecedor. Não recordo perfeitamente da minha fisionomia e dos meus irmãos naquela fase das nossas vidas, apenas que eu era raquítica e triste, por conta das imensas enfermidades que me alcançavam constantemente. Mas éramos todos pequenos, ?de cobrir com balaio?, como papai frisava sempre. Infância de criança do interior, naquela época, é como se fosse velhice, diante da austeridade com que éramos educados. Tínhamos alimentação, vestimentas, sapatos além da conta. Os brinquedos eram raros, nunca se renovavam. Para os meninos, cavalo de pau, ximbras, bolas, bicicletas, carrinhos de madeira, e para as meninas bruxas de pano, compradas na feira, alguns calungas de celulose, guardados em armários ou gavetas, mas possuíamos o privilégio de batizá-las com o nome preferido e sonhar com o futuro de cada uma. Mamãe era caprichosa e sempre dispunha de tempo para revistar os nossos guarda-roupas e penteadeiras, para que sempre permanecessem na mais perfeita ordem. O ser humano quase sempre se esquece de valorizar o passado, ou mesmo não possuímos capacidade para fazê-lo, mas, no futuro, tecemos comparações, nos cercamos de saudades mórbidas, recordações sinceras que apenas nutrem a nossa saudade. Ah, se um dia tivéssemos imaginado que nossos pais seriam levados para um local tão desconhecido e jamais retornariam, teríamos vivido tanto quanto não soubemos viver! Confesso haver sido uma criança sonhadora, ingênua, incapaz de acompanhar a passagem do tempo. Ignorava o amanhã, nem percebia que ele seria outro dia, diferente, desconhecido, e o ontem nunca retornaria. Vivia escrevendo versos e prosas sem sentido, aleatórios, muitas vezes. Hoje, papai, através de uma imaginação súbita, de uma utopia inesperada, cheguei a ouvir a sua voz firme e eloquente, perguntando à mamãe como normalmente fazia: ?Zezé, cadê a minha dedeira?? Entre uma lágrima e outra, petrificadas nos meus olhos, num enlevo absoluto, num clamor extraviado, tento retornar àqueles momentos que jamais voltarão, apenas poderemos revivê-los sob a forma de sonhos que se dissiparão logo ao despertar. Ainda assim, sabendo que o seu violão e a sua voz não mais existem, procuraremos responder ao seu chamado, da maneira virtual que o presente favorece e responderemos ao seu chamamento dizendo: ?A sua dedeira, papai, está aqui na palma das nossas mãos?! E, num passe de mágica, numa fantasia que rapidamente se dissipará, arrastaremos novamente as nossas cadeiras, colocando-as ao seu redor e bradaremos com uma uníssona voz: ?Cante mais uma vez, papai, porque as suas melodias e os acordes do seu violão jamais silenciarão?!