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Opinião

Aprendizados e encontros

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Eu tinha uma bicicleta cor de laranja, uma berlineta da Caloi que me levava rua acima e rua abaixo pelas ladeiras de Murici. Certo dia, distraí-me olhando para o lado e bati de frente na pequena árvore que havia na calçada da minha tia Mabel, estatelando-me no chão e ganhando de presente um arranhão profundo no joelho e no cotovelo. Corri para casa chorando de dor e de vergonha, minha avó Izarele lavou os ferimentos com água oxigenada, tratou-os com merthiolate e recostou a minha cabeça em seu colo cheiroso de Seiva de Alfazema, dando-me aquela que talvez tenha sido a primeira lição que eu recebi sobre os revezes da vida: ?Chore não, meu filho. Você ainda vai levar muitas quedas, e tem que aprender a se levantar para tentar não cair de novo?. No fundo, no fundo, é sempre isso que somos instados continuamente a fazer, ao longo da estrada que nos é permitido palmilhar, já que ninguém anda sempre em linha reta e por terrenos planos. Há sempre curvas que surgem à nossa frente, muitas das vezes de surpresa, e não raro somos empurrados para ladeiras, buracos e precipícios, o que desafia o nosso senso de equilíbrio e nos faz titubear diante do próximo passo. Mas urge seguir andando, sem demora nem descanso em demasia, porque o que construímos, experimentamos e sentimos é feito durante a caminhada, tempo de aprendizados e de descobertas que não devemos desperdiçar. E em tudo se pode achar motivos para apreciar a paisagem, desde que tenhamos os olhos bem abertos para enxergar o que não é tão explícito e que requer mais da nossa sensibilidade e da nossa atenção. Vinícius de Moraes já disse que ?a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida?. Contrariando Jean-Paul Sartre (para quem ?o inferno são os outros?), o escritor português Valter Hugo Mãe afirmou que os outros são o paraíso, pois ?um homem sozinho é apenas um animal?, concluindo: ?na solidão, só vale a pena tentar encontrar alguém. O resto é tristeza?. Por isso o velho Zé Biritiu, filósofo muriciense, arrematava: ?Sozinho, seu menino, o cabra não é nada, nem corno?. Tive muitos encontros extraordinários ao longo das minhas quase cinco décadas de existência. Quando olho para trás, nunca me vejo sozinho na trajetória que percorri até aqui, e louvo a Deus por cada pessoa que passou pelo meu caminho. Há, de fato, um misterioso rio que envolve existências inteiras num inesperado curso comum, a mesma correnteza arrastando lado a lado seres por vezes tão díspares e conflitantes. Certo é que nunca estamos absolutamente sós; sempre há quem nos faça companhia, para o bem ou para o mal.

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