Opinião
Viva o forró!
LUIZ GONZAGA BARROSO FILHO * Uma questão que não está devidamente esclarecida na história da música popular brasileira diz respeito à origem da palavra forró. A versão mais conhecida, para explicar seu significado, vem da expressão inglesa for all (para todos), que era defendida pelo cantor e compositor Luiz Gonzaga, o rei do baião. Já o folclorista Câmera Cascudo registra que o termo forró é sinônimo de arrasta-pé, bailes ordinários sem etiquetas, o mesmo que forrobodó. Compartilhando da opinião do escritor potiguar, o filólogo Aurélio Buarque de Holanda assinala que forró é uma forma reduzida do vocábulo forrobodó. No entanto, para o antropólogo cultural José Maria Tenório Rocha, a palavra designa apenas o espaço (lugar) onde se dança ao ritmo do baião, do xaxado, do xote e do coco. Conforme se observa, todas essas versões apresentam uma correlação e são aceitáveis, pois estão bem aproximadas daquilo que o povo do interior do Nordeste conhece do gênero musical representativo da sua região, caracterizados por composições que falam do cotidiano rural, dos problemas decorrentes da seca, das festas, dos costumes do sertanejo e da religiosidade, executadas ao som de sanfonas, triângulos e zabumba, constituindo, assim, o forró tradicional (pé-de-serra), hoje contaminado com o surgimento das bandas eletrônicas que incorporaram metais, guitarras, baterias e teclados a sua formação, além de novas categorias e ritmos alienígenas (salsa cubana, regaee lambada), para competir comercialmente com a axé music, a ponto de ser rebatizado como ridículo nome de oxente music, sobre o pretexto de resgatá-lo, em face do sucesso dos baianos. Esse processo de transformação não se restringiu apenas ao forró. A música caipira típica do Centro-Oeste e do Sudeste também foi atingida com o aparecimento das denominadas duplas sertanejas, representadas por cantores como Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo e Luciano e outros falsos intérpretes da música regional. Fenômeno semelhante ocorreu com o samba carioca de fundo de quintal, depois do surgimento dos chamados grupos de pagode. O mesmo aconteceu com o samba-enredo, que, nos últimos anos, passou a ter o andamento musical de marcha, por imposição dos patrocinadores dos desfiles das escolas de samba, cujo regulamento penaliza a agremiação que não cumpre a cronometragem estabelecida. Com isso, a Escola acelerou o ritmo do desfile para não perder pontos, perdendo, com tudo, a qualidade e a beleza do espetáculo. Embora tais mudanças atendam a interesses comerciais, ao mercado fonográfico e a uma parcela do público, durante algum tempo, elas não significam o fim das legítimas expressões da música popular, uma vez que assumem característica de modismo e aca-bam saturando. Nesse sentido, pode-se até arriscar: afora alguns pesquisa-dores e um ou outro fã, quem se lembra do primeiro sucesso de uma dupla sertaneja moderna, de um grupo de pagode ou de uma banda de forró eletrônico? Por outro lado, no tocante ao forró pé-de-serra, a obra do genial Luiz Gonzaga, de Jackson do Pandeiro e de outros forrozeiros tradi-cionais, pode ser considerada eterna e conta com fiéis seguidores de talento reconhecido, como Dominguinhos, Nando Cordel, Marinêz, Trio Nordestino, Clemilda, Alcimar Monteiro, Flávio José e Jorge de Al-tinho, só para citar alguns. Portanto, o que nos resta saber é se o movimento da oxente music irá perdurar mais tempo do que a agonizante axé music. Sobre a origem do forró autêntico, as controvérsias ainda irão demorar a ser esclarecidas; porém, nenhuma dúvida existe quanto à vitalidade, beleza e importância dessa manifestação musical no contexto cultural do Nordeste. (*) É MEMBRO DA COMISSÃO ALAGOANA DE FOLCLORE