Opinião
Encarnação anunciada

| Sérgio Costa * Maria Salustiana estava grávida de nove meses e um dia. Vivia no Morro da Encarnação, onde diariamente nascem e morrem os mais sanguinários filhos do descaso social. Assim que parisse, sairia daquela atmosfera hostil, pensava ela. Não queria que seu filho sofresse más influências. Mas tem gente que já nasce com o destino encomendado. Naquela manhã ela foi tomada por estranhos presságios. Só pensava em coisa ruim. À tarde, quando o sol se foi, o céu começou a choramingar. Salustiana foi até o varal para socorrer a roupa. Pegou tudo num só abraço e levou para uma pequena choça que ficava no fundo do quintal. Abriu a porta e jogou os trapos em cima de um velho estofado que ficava bem perto da entrada. De repente, notou sombras se movimentando nas paredes e ouviu murmúrios vindos do canto oposto de onde se encontrava. Voltou-se de rapidamente e viu um homem ajoelhado no chão. Estava todo ensangüentado. Rodeavam-no um sem número de velas acesas e enquanto seus braços e sua testa tocavam e se afastavam freneticamente do chão de barro, sua voz soltava grunhidos inaudíveis. Mais preocupada do que com medo, Salustiana aguçou os ouvidos e tentou entender o que o homem falava. Parecia que ele estava agradecendo a alguém por lhe dar outra vida após a morte. Amedrontada, segurou o ventre com as duas mãos e saiu do casebre da mesma forma que entrou, sem ser notada. Andando cuidadosamente, foi chamar a vizinha, Dona Epitácia, que além de parteira carregava a fama de conhecer os segredos do além. As duas foram ver o homem. Ao ouvir as suas repetidas lamúrias de agradecimento, Epitácia não titubeou: Quando morrer, o espírito desse homem vai encarnar no teu menino! - De jeito nenhum, disse D. Salustiana. - O meu filho não vai ter o mesmo futuro de algumas crianças que nascem aqui. Vou embora deste lugar! Mas a notícia foi tão aterradora que ela entrou em estado de parto ali mesmo. Foi tudo muito rápido. Enquanto o menino levava a palmada de Epitácia e chorava para a vida, as velas se apagaram e sumiram com o homem. Ficaram as roupas, os documentos e um revolver. Em casa, Salustiana ficou assustada ao ver o olhar raivoso da criança. - Você ainda não se acostumou com essas encarnações, comadre?! - Com muito carinho e perseverança talvez você consiga mudar o gênio dele, disse D. Epitácia. E, sob os olhares desanimados da pobre mãe, entregou-lhe a herança carregada de balas e a foto do marginal cujo espírito encarnara no seu filho. (*) É contador.