Opinião
O suplício de Sísifo

| Jenner Bastos * O suplício de Sísifo diz respeito ao eterno refazer. É uma passagem da mitologia grega. Sísifo, em esforço descomunal, faz rolar uma enorme pedra montanha acima. Bem perto de atingir o cume e ofegante pelo esforço empreendido, a pedra lhe escapa por algum infeliz motivo. Em conseqüência, a pedra passa a rolar montanha abaixo. O pobre Sísifo é instado a fazer tudo outra vez. Ele o faz e acontece novamente a mesma coisa. E assim se sucede por toda a eternidade. O suplício de Sísifo é um dos mais graves entraves ao desenvolvimento de um país. Tomemos, por exemplo, uma estrada a ser asfaltada. Se o trabalho for apenas aparentemente bem feito, mas de fato for malfeito, ele não resistirá às estações chuvosas. Haverá de se refazer o trabalho. E tantas quantas vezes assim se fizer, não se terá estradas permanentemente conservadas. Não se terá também a reserva racional de recursos para uma salutar manutenção. É aquela história do barato que sai caro. Deste modo, se gasta muito com serviço malfeito. A eterna recorrência em ter que se consertar aquilo que é malfeito, e não raro propositalmente malfeito, reduz severamente investimentos para outros fins. Vi Paulo Freire falar numa série de palestras proferidas em Maceió, na década de 80, que educação não pode ser algo baratinho. Tem que se investir substancialmente e bem. E bem aí significa preparar bons professores e não atender simplesmente à lógica estreita das empreiteiras. Situação análoga ocorre para a saúde, para a segurança pública e para quaisquer outros setores estratégicos. Desnecessário falar do hediondo e hiperbólico suplício de Sísifo constituído por aqueles que não têm apreço pelo dinheiro público. Esses são verdadeiros exterminadores de futuro que a Sociedade não deve tolerar. Outro argumento importante se refere à continuidade administrativa e o que deve ser sustentável na esfera política. Isso vai muito além da discussão sobre a legitimidade ou não do processo de reeleição. Tendo ou não tendo reeleição quem assume um cargo executivo tem obrigação de dar continuidade aos bons projetos de administrações passadas. Isso porque as políticas públicas não devem ser tão somente políticas desse ou daquele governo, desse ou daquele partido, e sim políticas de Estado. Não agir assim, pelo medo de que ao se fazer o correto transfere-se dividendos político-eleitorais para o adversário é próprio do político sem grandeza. Superar o suplício de Sísifo é absolutamente necessário e a sociedade exige passos significativos nesta direção. (*) É doutor em física teórica e professor da Ufal.