Opinião
Yuppie

| JORGE BRISENO * Aconteceu na última vez que estive em São Paulo. Tinha acabado de sair com um russo debaixo do braço , da livraria Cultura, no Conjunto Nacional, e, depois de respirar fundo, me lancei na avenida Paulista fervilhando de gente e densa de veículos. Não sei se o distinto leitor já colocou seus sapatos na larga calçada da Paulista e enfrentou a fauna multifacetada que ali trafega. Uma arca de Noé. Dir-se-ia que somos jogados em uma babel, tal a miscelânea de raças, línguas e sotaques que vemos e ouvimos. Como se todos os países do mundo, em um átimo, enviassem um representante para compor um microcosmo em poucas quadras. Fico embevecido ao transitar por aquela área e tentar identificar os idiomas que, aqui e acolá, vou escutando. Estava nessa espécie de vertigem quando sou, literalmente, atropelado por um sujeito, com um celular colado ao ouvido, de cabelos pretos engomados de tal forma que lhe deixava parecido com um cantor de tango argentino , exalando um dinamismo alucinante e trajando um terno puxando para o cinza, de fino corte, com vários documentos aprisionados pelas axilas, que desce de um carro e, varando a multidão, tenta atravessar, como um bólido, o calçadão transversalmente. O impacto do brusco esbarrão foi enorme, porém não me exaspero nem me inquieto, pois estava absolutamente convencido da minha inocência. Nossos olhares, por um momento, se entrecruzam. Seus olhos arregalados pareciam duas enormes bolas de gude pretas. Olhou-me de soslaio com uma frieza glacial, uma indiferença gélida , quase sem me encarar. Sem ao menos solicitar escusas, continuou, olimpicamente, falando ao telefone de forma belicosa, quase homicida: Seja impiedoso! Destrua-o! Liquide-o! Seja feroz! Não o poupe, ele é o nosso maior rival no mercado.... Por um momento imaginei que ele estivesse falando com um assassino profissional. Nesse instante ai de mim , gentil leitor, percebi a tragédia em que me metera. Eu tinha sido abalroado por um frio, calculista, ambicioso, cruel e insensível yuppie paulistano corroído pelo mais abjeto egoísmo. Enquanto recolhia meu russo Almas Mortas, de Nikolai Gogol notei que o yuppie também resgatava seu livro. Desses de auto-ajuda empresarial, que aparecem nas listas de mais vendidos. Estéril e vazio como três desertos do Atacama. Ao perceber a distância infinita que separava o meu livro do dele, sou invadido por uma torrente de felicidade. Ele se afasta, deixando um homem a observá-lo com compaixão. (*) É diretor de Operação da Casal.