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O ANJO DOUTOR

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RONALD MENDONÇA * Doutor Smith era um solitário caminhoneiro que rasgava as estradas americanas transportando produtos químicos. De resumida conversa, pouco se sabia do estranho motorista que mal cumprimentava seus colegas. Quando tinha chance de se reunir nos gigantescos postos de gasolina ou nos ermos locais de descanso à beira das rodovias, ouvia muito mais do que falava. Apesar do comportamento arredio, ?doutor? Smith gozava de grande prestígio entre os seus pares, por causa de surpreendentes procedimentos médicos por ele praticados, em situações de emergência. Com efeito, não foram poucas as vezes em que Smith, usando tábuas e tiras de pano, improvisouimobilizações de membros fraturados de acidentados, com espantosa habilidade. Assim também sucedia quando havia necessidade de fazer parar sangramentos decorrentes de lesões abertas. Nessas horas, o ?doutor? abria secreta maleta de onde retirava pinças hospitalares, fios cirúrgicos e porta-agulhas, para laquear vasos e suturar feridas com a habilidade de um cirurgião. Nos dez anos que trabalhava como caminhoneiro, sua fama como ?anjo da guarda? das estradas atravessou fronteiras. Um dia, os companheiros de labuta pensaram até em chamar a televisão para uma reportagem especial. A iniciativa ficou apenas na intenção, posto que Smith desautorizou-a com severidade. Um dia, um grave acidente automobilístico atingiu uma família inteira. Prestimoso, Smith verificou que uma criança de 13 anos estava asfixiada, por causa de uma lesão na face que impedia a entrada de ar para os pulmões. Descordada e roxa, a acidentada jazia imóvel em meio à vegetação. O anjo doutor não hesitou em fazer uma abertura na traquéia da acidentada, improvisando uma cânula de traqueostomia com um tubo de borracha. A heróica medida, como um milagre, restabeleceu não só a respiração, mas a consciência e os movimentos. Um mês depois o ?doutor? era algemado diante dos colegas, acusado de exercício ilegal da Medicina, com o adicional agravante de ter sido o responsável por uma brutal infecção respiratória que quase tirou a vida da criança que ele havia socorrido. Foi aí que toda a história veio à tona. Smith era um cirurgião que havia abandonado a Medicina, em decorrência de um grave acidente que matara a esposa e o filho único. A opção pelas estradas era porque seu pai tinha sido caminhoneiro e ele próprio, quando estudante, acompanhava o pai. Apesar da repercussão, os pais da criança salva mostraram-se irredutíveis e mantiveram a acusação até o fim. A humanidade encolheu ainda mais no dia em que a Justiça condenou Smith. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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