Opinião
Dupla injustiça

| AGATÂNGELO VASCONCELOS * A reverência aos vultos importantes da saga da humanidade, é diretriz que deve ser estimulada perante as novas gerações da coletividade. A História, mestra da vida (Cícero) e particularmente a História da Medicina, estão sempre a nos apontar nomes que a todos engrandecem pelos exemplos em que se constituíram no cenário humano. No que tange à Ars Curandi, são pessoas que pelo valor de suas contribuições científicas e pela singularidade de suas trajetórias no seu tempo e espaço, tornaram-se vultos a ser preservados na memória coletiva. Nos países de maior tradição cultural defende-se bravamente o idioma vernáculo procurando não degradá-lo com estrangeirismos desnecessários e, portanto, dispensáveis, ao contrário de nós que quase já falamos e escrevemos em portinglês). Em Alagoas, as localidades mudam os seus topônimos todas as vezes em que se tornam novos municípios, com algumas exceções para confirmar o geral. Agora mesmo propõe-se a permuta do patronímico que designa o complexo hospitalar José Carneiro, para Oswaldo Brandão Vilela, ambos os homenageados figuras conterrâneas merecedoras de admiração e respeito. José Carneiro de Albuquerque, um dos fundadores da Sociedade de Medicina de Alagoas da qual foi presidente de 1924 a 1928, foi também, por longos anos, chefe do Serviço de Cirurgia da Santa Casa de Misericórdia de Maceió. Habitual participante dos eventos científicos locais, em agosto de 1918 apresentou à comunidade médica um caso clínico de laparotomia para a extração de um volumoso tumor, despertando grande interesse científico e repercussão popular. Foi José Carneiro o presidente do 1º Congresso Alagoano de Medicina, realizado em junho de 1933 no auditório do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Profissional competente, médico de prática humanitária, merece portanto ser o patrono do mencionado conjunto hospitalar. Oswaldo Brandão Vilela, ilustre professor universitário atuando nos departamentos de fisiologia e de clínica médica da Ufal, era um gastroenterologista de escola. Dirigia uma enfermaria na Santa Casa de Maceió para onde acorriam os estudantes que desejavam aprender com o mestre. Oswaldo Brandão Vilela é merecedor, sem dúvida, de ter o seu nome aposto em qualquer serviço estadual ou municipal de saúde; não merece, contudo, que ao ser homenageado pelo poder público, venha a expulsar do nosso patrimônio cultural outro nome de igual valor ao seu. José Carneiro de Albuquerque e Oswaldo Brandão Vilela, profissionais competentes e cidadãos de vida ilibada, estão sendo ambos injustiçados. (*) É médico e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.