Opinião
O diálogo e a relação conjugal
| JOSÉ MEDEIROS * Quando duas pessoas se escolhem para serem parceiras, nessa relação conhecida como casamento, a seguinte pergunta deveria ser respondida com total segurança: essa é a pessoa com quem eu seria capaz de conversar, com satisfação, até a minha mais longa idade? A capacidade de conversar, com prazer, aliada a uma amizade afetiva, parecem ser os únicos trunfos daqueles que conseguem atravessar muitos anos juntos, com qualidade de vida. Como, atualmente, o número de divórcios, em algumas localidades, já se aproxima do número de casamentos, isso significa que juramentos firmados nem sempre são consolidados com o decorrer dos anos. Não é à toa que presenciamos, diariamente, um número cada vez maior de relações que definham no primeiro obstáculo, justamente pela falta da capacidade de dialogar. Aliás, como bem assinala Rubem Alves em seu texto Casamento frescobol x tênis, quando o entusiasmo inicial se atenua, o amor pode ser ressuscitado por meio de palavras, carinho e compreensão mútua. Conversar, além de ser importante para qualquer relação, é a melhor forma de conhecer preferências, pontos de vista e o melhor jeito de saber o que deve ser feito para não magoar o outro. Dialogar é descobrir. Outro importante ponto, num relacionamento, é não esperar a perfeição. Os seres humanos são marcados pela incapacidade de serem perfeitos e pela capacidade de melhorar um pouco a cada dia, o que pode muito bem tornar mais fácil a convivência, ao lado de alguém por quem nutrimos afeição. Como diz Vinícius de Morais: Dois corações nunca batem iguais. Um caso que já não é incomum: num programa radiofônico perguntaram a uma vitoriosa empresária se era casada. Respondeu que não. Por opção, dedicava-se de corpo e alma ao seu trabalho. Não havia tempo para um relacionamento sério. O repórter insistiu: A senhora não tem medo da solidão? Os tempos mudaram os hábitos também. Ficar é a palavra mais conhecida da nova geração. Análises mostram resultados imprevisíveis dessa recente forma de pensar e de viver. Passada a fase de euforia juvenil, muitos voltam aos tradicionais costumes de suas famílias e de seus grupos sociais. As uniões estáveis entre parceiros solteiros dão certo, quando ambos têm estabilidade emocional. Os casamentos ditos sociais, mantidos apenas para satisfazer a opinião pública, nem sempre fazem felizes os cônjuges participantes. Um fato parece óbvio: qualquer tipo de relacionamento somente subsiste se for embasado em confiança. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.