Opinião
Cinco médicos, cinco perdas

| NÁDIA AMORIM * Os médicos ou médicas, ocupam um lugar especial do imaginário coletivo. Por lidarem e para isso são academicamente preparados com as duas mais essenciais questões que envolvem os seres humanos, a vida, desde sua gestão, e a morte, até seus últimos estertores, são tidos, vistos e sentidos como salvadores e como imunes ao que, nobremente, procuram afastar: as doenças e, afastando-as, curando-as, preservando a vida com qualidade. Essa percepção do imaginário popular, permeia e afeta profundamente as mais variadas classes sociais, sempre que algum médico (a) vem a falecer. Os clientes sentem-se órfãos e perguntam: Por quê? E agora? Todo profissional que constrói sua vida sobre as bases de um trabalho sério, competente, digno e amoroso isso mesmo: amoroso deixa como legado o exemplo do amor à profissão, do respeito por si próprio e da delicadeza e consideração pelo sujeito/objeto do seu trabalho. Em Maceió, ultimamente tivemos cinco perdas de peso, representadas por dois médicos da geração mais idosa e outros três da geração mais nova. Da geração dos meus pais, refiro-me ao dr. Jorge Quintela, dermatologista, e dr. Antônio Moura Rezende, oftalmologista otorrino. Eu, então criança, fui levada a ambos e, como esquecer seu atendimento pontuado pela extrema delicadeza, paciência, minucioso exame clínico, de exitoso resultado? A morte de ambos trouxe-me a nostalgia de um tempo em que o saber do médico, a observação, perspicácia e experiência prevaleciam sobre a tecnologia incipiente. Estabelecia-se entre médico/paciente uma relação de confiança, respeito mútuo e afetividade. Dr. Armando Lages, dr. João Macário, dr. Manoel Moura Rezende, partiram em plena atividade, no vigor da maturidade a melhor fase para qualquer profissional que, já consciente da importância do seu empenho e desempenho na profissão que escolheu luta por ela, cuida dela, esquecendo-se por vezes de cuidar de si próprio. Soube, por outra cliente mais antiga, que dias antes estivera com dr. Armando Lages, que ao sair, despedindo-se, surpreendentemente, ouviu-o pedir-lhe: Reza por mim. O que dizer, o que falar, diante da morte de jovens e promissores médicos? Diante da morte de médicos que, à semelhança dos dois primeiros lembrados, cumpriram seu itinerário terreno? Os sinos, não agonizam. Agora, nas esferas em movimento, eles nos vêem e vão trabalhar em outras searas. Obrigada! (*) É antropóloga.