Opinião
A aventura chinesa
| RONALD MENDONÇA * No orquidário dos grandes advogados do Brasil, certamente o doutor Sobral Pinto ocupa local de destaque. Portador de invejável lucidez até fechar os olhos pela última vez aos 98 anos, doutor Sobral foi um sujeito que exalava decência. Célebre pela intransigente defesa dos princípios democráticos, não hesitava em se expor por defender presos políticos, sem levar em conta se os clientes professavam ideologia que contrariava seus pontos de vista. Foi assim com Carlos Prestes, durante a ditadura Vargas, talvez seu cliente comunista mais famoso. Na ditadura militar, consta que Sobral Pinto interessou-se pelo caso de marinheiros chineses recolhidos à prisão por suspeita de espionagens ou coisas do gênero. Era a paranóia à flor da pele dos milicos. Depois de demonstrar a arbitrariedade da prisão e libertar os orientais, Sobral Pinto teria recusado, além de pagamento pecuniário (por si só, uma extravagância do ofício), comenda oferecida pelo governo chinês em sinal de agradecimento pelos serviços prestados. O argumento teve tudo a ver com o velho causídico: Não posso aceitar essa comenda, a ditadura de vocês é pior do que isso aqui. O tempo passou. Com a defenestração dos militares, voltamos a respirar aliviados. Há liberdade de opinião, convive-se sem traumas com idéias divergentes. Tem-se acesso a informações e o direito de ir e vir sem precisar de salvo-condutos. Não obstante, se não bastassem a corrupção e os apadrinhamentos a solapar a estrutura governamental, duas organizações oficiais exageram na espreita à individualidade do cidadão como um mau agouro ao Estado de Direito: Polícia Federal e a Receita. A China de Mao a Piao também mudou. Especialistas e palpiteiros em geral são mais ou menos unânimes em afirmar que a pitada (generosa) de capitalismo no comunismo chinês oxigenou a economia, dando novo alento ao milenar país, ameaçado pela estagnação do absolutismo estatal. A confiança é tão grande que os dirigentes chineses resolveram abrir o país para a realização de uma olimpíada. É claro que os asiáticos não estão sozinhos nessa aventura esportivo-burguesa. Por trás da bela paisagem milenar e das coloridas bandeiras estão as pegadas das poderosas multinacionais, de olho no fabuloso e promissor mercado consumidor chinês. Nunca é demais lembrar que em 1980 a União Soviética embarcaria em aventura semelhante. Coincidência ou não, dez anos depois o império ruiria como pedras de um dominó. (*) É médico e professor da Ufal.