Opinião
Riscos ressucitados - EDITORIAL

Atento aos Jogos Olímpicos de Pequim, aparentemente, o grosso da opinião pública mundial pouco está ligando para as escaramuças militares da Rússia contra a Geórgia, mas ali pode estar ganhando corpo o germe de futuras conflagrações de porte global. O mais significativo deste conflito (de óbvio resultado localizado) entre a gigante Rússia e a pequena Geórgia é a retomada, através desta ação militar, do assustador quadro de tensionamento militar entre a russos e americanos (ambos potentados atômicos), como nos piores anos da Guerra Fria (que muitos julgavam finda). Ex-aliada de Moscou, república integrante da extinta União Soviética, a milenar Geórgia estava se bandeando, de forma clara, para longe dos interesses russos. Nesse processo de distanciamento evidente, várias iniciativas militares georgianas haviam sido tomadas em claro enfrentamento aos interesses da Rússia na Ossétia do Sul, o pomo da discórdia. O Kremilin tem suas justificativas éticas para a agressão militar, que são apenas desculpas. Há poucos anos, os Estados Unidos iniciaram sua cruzada pela recuperação, manu militari, do controle sobre um de seus mais preciosos ex-aliados no Oriente Médio, o Iraque. A Casa Branca tem suas justificativas éticas para a agressão militar, que são apenas desculpas. Desculpas à parte, os dois super-rivais do tempo da Guerra Fria estão esquentando, novamente, o mundo através de movimentos arrogantemente descarados de ampliação, à força, de suas esferas de influência, ambos subjugando pela via armada, seus ex-parceiros. Falsas justificativas e discursos eivados de sofismas buscam maquiar a cara monstruosa do recrudescimento do perigo de um conflito de proporções globais. Quem se interessa verdadeiramente pela paz deve prestar mais atenção a tudo isso e se contrapor, de todas as maneiras, contra essa ameaça.