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Opinião

Remadores do alfabeto

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JOSÉ MEDEIROS q ?Lutar com palavras/ é a lua mais vã./ Entanto lutamos/Mal rompe a manhã? (Carlos Drummond de Andrade). Lutam com palavras os jornalistas, os escritores, os poetas, os comunicadores, os docentes, enfim, todos os que escrevem, todos os falantes, toda a espécie humana, vez que a palavra é o instrumento de comunicação. A palavra falada vem da origem do homem, a palavra escrita, artesanal no início, foi aperfeiçoada pela genialidade de Gutenberg. Por que agora essas observações tão óbvias? Há alguns meses esteve na pauta de discussões o grave problema do analfabetismo tendo sido sugerido ? à época ? a criação de uma ?Bolsa Analfabeto?, programa de larga escala no combate sistemático a esse mal social. O assunto é complexo e tem desafiado sucessivos governos. Envolve questões básicas da vida da população, muitas vezes em nível de sobrevivência. Recentemente, numa roda de conversas sobre educação, um professor nos contou uma historieta sobre analfabetismo, pedindo desculpas porque reconhecia a gravidade do tema, mancha no mapa do país no terceiro ano do século XXI. Como não uso gravador vou repeti-la mantendo a essência e dando nova forma às palavras ouvidas. Alô, quem está falando? ? A empregada da casa. A senhora quer alguma coisa? ? Dona fulana está? ? Não, ela saiu, foi fazer compras. Quer deixar algum recado? ? Quero, escreva meu nome e telefone para que ela possa retornar a ligação. ? Ah! Tenho um problema, não sei ler, nem escrever; mas a senhora diga duas vezes o nome e o telefone que eu decoro e repito pra ela. ? Que idade você tem? Por que não sabe ler? ? Não tive tempo de estudar, ajudava meu pai na roça. Mas ponha dinheiro na minha mão que eu sei contar. Riu com gosto. ? Pouco confiando na memória da modesta pessoa do outro lado da linha repetiu os dados solicitados. A seguir perguntou: conseguiu decorar? ? Claro que decorei, quem não sabe ler tem de usar a cabeça. Conclusão: deu o recado direitinho, mas a dona da casa tomou uma decisão: matriculou-a numa escola noturna. Afinal, para quem tem boa cabeça, a aprendizagem da leitura e da escrita se torna mais fácil. ?A palavra escrita é o corpo, a palavra falada é a alma, afirmam os sábios do Velho Testamento?. Os analfabetos perdem boa parte dessa unidade. Na alfabetização de jovens e adultos todos os esforços têm esbarrado em dificuldades práticas. Os números e resultados não são animadores. Foram muitas as campanhas realizadas. Muitas idéias, poucos recursos, louváveis intenções. Entretanto, vale a pena tentar, vale a pena incentivar os que tentam. Trata-se de grave dívida social. Não se pode deixar de contar com a participação da comunidade, cada vez mais entusiasmada em contribuir nas ações de educação. Os voluntários têm feito extraordinário trabalho em vários segmentos de atividade coletiva. Em um tipo de voluntariado, pouco divulgado e conhecido, cada família adota um analfabeto, paga despesas de material escolar, transporte, instrutores e acompanha os resultados. Cumprem responsabilidade social, todos ficam felizes por isso. Somos cultores do alfabeto, esse barco de 23 remadores que singra as águas de todos os hemisférios, multiplicado sob mil formas na criatividade de cada um. (q) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE

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