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Opinião

Supersti��es e crendices

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LYSETTE LYRA * O que é superstição? É um sentimento baseado na crença de presságios, tirado de fatos apenas fortuitos. Receio que induz a admitir coisas fantásticas, a atribuir poderes absurdos a certos objetos ou a certas atitudes. Existem alguns preconceitos tão incoerentes que se tornam cômicos. As crendices são ainda mais equivocadas e nascem, geralmente, da ignorância popular. Quando jovem, ingênua, deixava-me levar pela influência dos mais velhos que viviam inteiramente dominados por um mundo de superstições. Não se deveria passar por baixo de escadas, pois tal ato trazia má sorte. Espelho quebrado, não poderia permanecer dentro de casa, era um péssimo agouro. Quebrá-lo, então, era muito pior. Sapatos virados, com o solado para cima? Ameaça de morte de um dos genitores! Matar gatos ocasionaria sem nenhuma dúvida, sete anos de azar. Mas se um gato negro cruzasse seu caminho, você estaria frito. Era um sinal de que algo muito desagradável estaria para lhe acontecer. Ter no guarda-roupa muitos trajes negros, hum...! Atração de morte para a família. Vestir a indumentária pelo avesso não era nada bom. Andar para trás, de costas, significava chamar a morte. Dormir numa cama com os pés virados para a rua, era algo quase fatal, só os mortos poderiam fazê-lo. Varrer a casa do fundo para frente, era pôr fora a felicidade dos moradores. Dormir com um copo com água, descoberto, no quarto, atraia os espíritos. Cortar o cortejo de um enterro, era levar a morte para casa. Presentear alguém com lenços? Sem dúvida, causaria o fim da amizade. Perder ou partir uma aliança? Adeus casamento; iria para as cucuias. Deixar a gaveta aberta queria dizer, túmulo a espera. Caramujos dentro de casa, significavam terrível mau agouro. Lembro-me que alguém teve a triste idéia de presentear minha mãe com um daqueles conhecidos ?abajurs? artesanais, feitos com a concha de um desses moluscos. Que infelicidade! Andou de mão em mão, desprezado educadamente, por todos que o recebiam. Enfim, existiam uma infinidade de superstições e o tempo seria pouco e a vida uma tortura se fossem segui-las todas. As plantas, coitadas, também, não fugiam a essa avaliação, e poderiam ser exorcizadas caso estivessem na lista das condenadas. Eu possuía uma tia que era a mestra da abusão. Não havia clemência para flores ou folhagem que estivessem em sua longa tabela de condenação. Cactos? Nem pensar! Eram os mais sinistros no seu julgamento, depois vinham as orquídeas, os cravos, sobretudo os de defunto. As rosas jamais deveriam enfeitar as mesas de aniversário. Lindas, mas agourentas! Havia no jardim de nossa casa, umas folhagens delicadas, com um colorido mesclado de verde, rosa e branco, chamadas Nuvens, que mereciam de minha mãe o maior desvelo. Um dia, minha tia se deparou com elas e ficou horrorizada! Como poderíamos cultivar aquela fonte de maus presságios? E, nervosa, fez a irmã arrancá-las logo ali, na hora, pela raiz. Comigo Niguem Pode, Resedás, Avelós e outras tantas, que já nem me lembro mais, também, estavam no rol das juramentadas. Sim, salvava-se o Trevo de Quatro Folhas, recebido festivamente pelos seus bons augúrios. Mas o pinheiro de Natal, jamais poderia crescer além da altura da casa, com o risco de provocar a morte do chefe da família. Felizmente que, também, existiam alguns bons presságios como: entornar vinho na mesa, derramar arroz no chão, usar um pezinho de coelho no bolso, beijar os pés de um recém nascido, mas a lista desses era bem menor. Com a idade e a evolução de minha mentalidade fui achando todos esses preconceitos uma grande tolice. Que mal poderia trazer uma orquídea, flor tão bela! Ou uma rosa? Não resta dúvida de que, às vezes, aconteciam algumas coincidências, mas não passavam de meros acasos, não obedeciam a uma regra. Hoje me tornei totalmente cética a esse respeito e divirto-me com os temores de algumas pessoas. Mas praticamente todos os indivíduos, em todas as épocas, nutriram essas crenças irracionais. Mesmo no mundo de hoje, que a vida é mais objetiva e a ciência nos torna mais realistas e racionais, ainda existe uma grande maioria que alimenta alguma espécie de superstição, mesmo secretamente. (*) É ESCRITORA

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