Opinião
Preconceito e ignorância

Na quinta-feira da semana passada, durante o programa Extraordinários do canal a cabo SporTV, o jornalista, escritor e tradutor Eduardo Bueno, conhecido como Peninha, chamou a região Nordeste de aquela bosta enquanto falava da produção açucareira dos holandeses na região. Apesar de o próprio Bueno ter dito logo depois que se tratava de uma brincadeira, uma piada, a declaração, é claro, não repercutiu bem e gerou uma onda de críticas nas redes sociais. Torna-se ainda mais grave porque partiu de um historiador e pesquisador. Brincadeira ou não, o fato é que não é a primeira vez que se escutam comentários depreciativos sobre o Nordeste. Esse preconceito contra os nordestinos não é de hoje. No Sul/Sudeste, não é raro vermos tratamento de discriminação contra os migrantes dos estados do Nordeste. Não são poucos os que veem os migrantes não como gente disposta a prosperar e trabalhar, mas estorvos que geram pobreza e mesmo a violência. Não deixa de ser uma expressão de racismo, em razão da origem da população. Muitos se julgam diferentes ou superiores porque descendem dos europeus, com predominância de brancos. Há ainda aqueles que têm uma visão equivocada da região, associando-a apenas à seca e à miséria. Se se dessem o trabalho de pesquisar sobre a realidade atual do Nordeste, Bueno e outros críticos certamente se surpreenderiam. A região tem registrado taxas de crescimento acima da média nacional. O poder de consumo nessa parte do Brasil tem muito espaço para evoluir. Segundo projeção dos especialistas, em cinco anos a classe média nordestina deverá superar os 50% da população. Os números são animadores: o poder de compra dos nordestinos já chega quase a 450 bilhões de reais, valor que corresponde à economia de países como Peru e República Checa. Apesar dos desafios estruturais e dos problemas sociais, o otimismo predomina na região. Isso sem falar na riqueza cultural da região, com seus ritmos, sua culinária, seus folguedos, além de suas belezas naturais que em parte estão sendo descobertas pelos milhares de turistas que vieram ao Brasil para a Copa do Mundo. Adjetivar uma região tão rica e acolhedora como o Nordeste com um termo tão depreciativo é, no mínimo, falta de respeito a um povo tão merecedor de admiração e reverência.