Opinião
Desequilíbrio insustentável
Um relatório da ONG britânica Oxfam, divulgado às vésperas da edição deste ano do Fórum Econômico Mundial de Davos, revelou que, a partir do ano que vem, os recursos acumulados pelo 1% mais rico do planeta ultrapassarão a riqueza do resto da população. A ONG sustenta que a explosão da desigualdade está dificultando a luta contra a pobreza global. A Oxfam afirmou que é necessário tomar medidas urgentes para frear o crescimento da desigualdade. A primeira delas deve ter como alvo a evasão fiscal praticada por grandes companhias. Na mesma linha, um relatório recentemente divulgado pelo banco Credit Suisse revelou que, em 2014, 0,7% das pessoas do mundo com ativos de mais de US$ 1 milhão controlavam 44% de toda a riqueza mundial. E uma importante pesquisa conduzida por professores da Universidade da Califórnia (EUA) e da LSE (Inglaterra) mostrou que os 0,1% americanos mais ricos detêm mais de um quinto de toda a riqueza do país. O aumento da desigualdade desde 1990 devolveu o mundo aos níveis da época da Segunda Guerra Mundial. Em um mundo mais rico que nunca, mais de 1,2 bilhão de pessoas ainda vive em situação de extrema pobreza. O diagnóstico das entidades é um só: entre as causas desse fenômeno está o fundamentalismo do mercado, que promove um crescimento econômico que beneficia apenas uma elite pequena, deixando em situação ainda mais difícil os pobres. Nos últimos anos, o Brasil tem experimentado uma queda lenta, porém constante dos índices de desigualdade. Os benefícios gerados por programas sociais como o Bolsa Família propiciaram um período de queda na concentração de renda, mas esse efeito pode ter chegado agora a um limite. O aumento da desigualdade é preocupante não apenas para os que estão na base da pirâmide. Já não é possível argumentar que a igualdade de oportunidades é tudo o que importa. Não pode haver igualdade de oportunidades em um mundo onde existe um tipo de desigualdade que não se vê desde as primeiras décadas do século passado. Parece não haver dúvidas, entretanto, que o mundo possui recursos suficientes para melhorar a vida de todos. O desafio é equilibrar esse jogo.