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Nº 5716
Opinião

Professor Sert�rius

MARCOS DAVID MELO * O professor Sertórius é um velho homem de ensino aposentado. Vive modesta e disciplinadamente de seus proventos da aposentadoria. Lecionou durante muitos anos em diversos colégios da nossa capital, dos quais guarda as suas melhores re

Por | Edição do dia 15/03/2002 - Matéria atualizada em 15/03/2002 às 00h00

MARCOS DAVID MELO * O professor Sertórius é um velho homem de ensino aposentado. Vive modesta e disciplinadamente de seus proventos da aposentadoria. Lecionou durante muitos anos em diversos colégios da nossa capital, dos quais guarda as suas melhores recordações. Tempos nos quais lecionou português e latim com patriótica dedicação. Apreciador da sobrevivente “última flor do lácio”, confessa-se, todavia, um eterno apaixonado pelo idioma de Cícero. Não aceita a alegação de alguns irreverentes companheiros de aposentadoria, que o dizem cultor de uma língua morta e enterrada. No último fim de semana, na orla da Ponta Verde, reunida a confraria dos aposentados, entremeada por gente ainda na ativa, como não poderia deixar de ser, o assunto era um só. O imbróglio da conexão Roseana Sarney-Campanha Presidencial. Comentários surgidos, os mais variados, inevitavelmente relacionados com as dificuldades do grupo e as extravagâncias do Poder entre nós. Pesco somente alguns, preservando como é de praxe, a identidade das fontes de informação. Um comerciante médio, trabalhador e honesto, afirmou: “Nos seus 30 anos de comércio, nunca imaginara existir tanta grana junta e em espécie. Só poderia ser coisa de tirineta”. Um industrial, também médio, lamentou: “E eu que vivo produzindo, empregando e pagando tudo que é imposto, nunca vou ter em banco nem 10% disto aí!” O médico apartou: “Estou trabalhando cada vez mais e ganhando menos. O SUS me paga 2,00 reais por uma consulta e 67,00 por uma cirurgia de amigdalas!”. O professor universitário, funcionário público, estrilou: “E eu que estou com salário quase congelado há 8 anos! Neste país que tanto precisa de educação!”. Por aí foram as muitas queixas, até que a palavra voltou aos aposentados, entre os quais estava o professor Sertórius. Um dos aposentados, ex-comerciante tão modesto quanto honesto reclamou: “Paguei INSS durante mais de 40 anos, muitos deles em cima de 20 salários para ter um mínimo de condições de vida depois de aposentado. Hoje só recebo 12 e, pior, os caras me comeram 3 e na prática, realmente, só recebo 9. Não respeitam ninguém, nem quem trabalhou honestamente e pagou o Instituto a vida toda. Minha última esperança é a Justiça!” Quando todos já tinham extravasado as suas mágoas, o professor Sertorius conclamou a todos: “Vocês, vivem a desdenhar do meu latim, mas ele, mais que qualquer outro, tem uma resposta para tudo isto que está acontecendo. Querem ver?” - Por que, só agora, se descobriu para o grande público que a governadora Roseana Sarney não teria como justificar a dinheirama que circula em suas mãos, sendo assim, suspeitíssima para uma candidatura presidencial? Sêneca afirmava: “Aliena vitia in oculis habemus; in tergo nostra sunt” (temos diante dos olhos os vícios alheios; os nossos estão atrás das costas). - Como foi possível flagrar o escritório da empresa da governadora, exatamente no momento que tinha uma grana grossa daquela dando sopa? Ovídio alertava: “Ignoti nulla cupido” (não se deseja o que se ignora). - Como tudo isto vai acabar? Se os aliados estão se tratando assim, imagine como será com os adversários. Mas fechemos com Fedro, que alertava em suas Fábulas: “Nunquam est fidelis cum potente societas” (nunca é segura a sociedade com os poderosos). E, dentro deste clima de tertúlias do purgatório, no final, quem vai assoprar a vela do bolo comemorativo da posse? Não só o Tinhoso. Sim todos juntos, confraternizando e felizes. Afinal, o poder é não só euforizante, como justifica mais uma dose de dedicado sacrifício coletivo. (*) É MÉDICO

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