Opinião
A lição que a sociedade precisa aprender
O balanço divulgado pela Controladoria-Geral da União (CGU), esta semana, sobre desvio de recursos da merenda e do transporte escolar em diversos municípios de todas as regiões brasileiras, revela uma das faces mais cruéis da corrupção. Não fosse pelos números, que nesse caso apontam a malversação, desde 2003, de cerca de R$ 2 bilhões (mais de R$ 150 milhões desviados por ano), seria pelo apelo social que a questão traz em si. Desviar recursos da merenda é tirar da boca de crianças e adolescentes o direito à alimentação na escola que para muitos constitui a única refeição do dia. É condenar milhares de estudantes a trocar a escola pelas ruas, pelo trabalho precoce, para poder comer. Mais deprimente ainda, é a triste lição que essas crianças e jovens em idade escolar levam para casa: a corrupção como prática comum, até mesmo na escola, onde deveriam aprender sobre cidadania. Dos 2,7 mil municípios fiscalizados até agora, em 199 foram identificadas irregularidades. A CGU constatou nessas prefeituras a relação direta entre a má gestão e o desempenho dos alunos. A média dos Índices de Desempenho da Educação Básica (Ideb) nos lugares onde há corrupção é de 3,55, menor que a média nacional, de 5,2. Em 2016, o Ministério da Educação promete investir R$ 3,6 bilhões em alimentação e R$ 600 milhões em custeio do transporte. Pelo que a Controladoria já identificou, é necessário aumentar a fiscalização e adotar medidas severas para impedir que esse dinheiro se perca em novos desvios. É necessário que Ministério da Justiça e da Educação, CGU e Polícia Federal levem muito a sério a ideia da força-tarefa para combater essa praga. Caso contrário, a corrupção vai continuar fazendo escola e produzindo vítimas por este imenso país . Como disse o ministro interino da CGU, Carlos Higino Ribeiro, a corrupção retira recursos públicos que servem para atender as demandas da sociedade. É indiscutivelmente mais grave e doloso quando se vê desvio de verbas na educação e, ainda mais, em áreas como merenda e transporte. Estão minando a possibilidade que o jovem ou a criança venham a ter um futuro melhor. Mais que isso, além de negarem seus direitos constitucionais, tiram delas o próprio futuro. Destroem em crianças e jovens a crença de que são parte da sociedade.