Opinião
A cor da pobreza

Estudo realizado pela ONU afirma que, apesar de 20 anos de iniciativas para reduzir a disparidade vivida pelos negros na sociedade brasileira, o País fracassou em mudar a realidade de discriminação e da pobreza que afeta essa parcela da população. A ONU aponta que houve um fracasso em lidar com a discriminação enraizada, exclusão e pobreza enfrentadas por essas comunidades e denuncia a criminalização da população negra no Brasil. O mais grave, segundo o documento, é que o mito da democracia racial continua sendo um obstáculo para se reconhecer o problema do racismo no Brasil. Ou seja, difunde-se a crença de que a marginalização dos afro-brasileiros se dá por causa de classe social e da riqueza, e não por fatores raciais e discriminação institucional. Para a ONU, lamentavelmente, a pobreza no Brasil continua tendo uma cor. Os números ilustram essa realidade. Dos 16,2 milhões de pessoas vivendo em extrema pobreza no País, 70,8% deles são afro-brasileiros. Segundo o levantamento das Nações Unidas, os salários médios dos negros no Brasil são 2,4 vezes mais baixos que o dos brancos e 80% dos analfabetos brasileiros são negros. De acordo com o estudo, os afro-brasileiros continuam no ponto mais baixo da escala socioeconômica do Brasil 64% deles não completam a educação básica. Mesmo com projetos como Bolsa Família, a desigualdade continuou para esse segmento. O impacto dessa situação social é ainda mais significativo para a juventude, que tem acesso limitado à educação e sofre com a falta de espaços comunitários e altas taxas de abandono da escola Outro aspecto tratado pela ONU é o impacto da violência nessa parcela da população. Dos 56 mil homicídios no Brasil por ano, 30 mil envolveram pessoas de 15 a 29 anos. Desses, 77% eram garotos negros. Também chamou a atenção da ONU a criminalização dos afro-brasileiros. Estima-se que 75% da população carcerária no Brasil seja de afro-brasileiros. Estudos ainda mostram que, se condenados, afro-brasileiros são desproporcionalmente sujeitos à prisão. A escravatura no Brasil foi oficialmente abolida, mas não houve propriamente uma ruptura com a ordem anterior, mas sim uma transição. Portanto, o País tem ainda um longo caminho até se tornar uma sociedade mais justa para todos, independentemente da cor da pele.