Opinião
Bandas de P�fanos
LUIZ G. BARROSO FILHO * O folclorista alagoano José Maria Tenório Rocha, em criança, no município de Quebrangulo, já demonstrava interesse pelas bandas de pífano, conjuntos musicais que animavam as festas populares de sua cidade, e que ele passou a pesquisar, resultando em sua tese de doutoramento na Universidade de São Paulo. Recentemente apresentado e aprovado no Curso de Artes Cênicas da USP, o trabalho intitulado ?As Bandas-de-Pífano do Nor-deste do Brasil, em uma Perspectiva Histórico-Cultural?, composto de 297 páginas, subdividido em dois volumes, coloca em discussão várias questões relacionadas a essas bandas, tais como: origens, cronologia denominações, vestimenta, geografia, sem deixar de verificar os aspectos teatrais contidos nesses grupos e os problemas sociais vividos por seus integrantes, geralmente trabalhadores rurais e biscateiros. A pesquisa também enfoca o vasto repertório que abriga dezenas de ritmos, além de trazer um estudo de cada um dos instrumentos a que compõem esse tipo de orquestra, que, segundo o autor, sofre enorme discriminação e tem suas criações usurpadas por compositores eruditos e da MPB. José Maria Tenório, que é membro da Academia Alagoana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, inclui ainda um perfil musical e biográfico dos mais destacados instrumentistas do Nordeste, como João do Pife, Raimundinho do Pife, Edmilson do Pife e Chau do Pife. Outrossim, faz referências às atividades das bandas mais famosas, salientando as de Caruaru e Marechal Deodoro. Considerado um fenômeno musical popular tipicamente do Nordeste brasileiro, o ?esquenta-mulher?, como é mais conhecido em Alagoas, é encontrado em todos os Estados da região e as primeiras notícias sobre esse tipo de conjunto datam de 1645, conforme registra José Maria Tenório, hoje radicado em Sergipe. Para ele, ?essas expressões musicais apresentam-se em quase todas as atividades do homem nordestino, até as mais inusitadas, principalmente nas cidades do interior, nos distritos e nos povoados; essa presença, longe de ser mal vista por representar a tradição, é muito bem aceita e motivo de alegria e júbilo naquelas comunidades. Apesar dessa aceitação quase irrestrita por parte de pessoas de classes sociais subalternas, a classe média nordestina, principalmente a urbana, preocupada com os valores sugeridos pela mídia, despreza os valores tradicionais, e passam a aceitar aqueles que as comunicações de massa oferecem, e que são marcados pelo ?bom gosto? e pelo tom ?pós-moderno?, embora não se pergunte o que seja tal qualificativo?. Formulando denúncias e criticando veemente o tratamento dado ao folguedo, ?As Bandas de Pífanos do Nordeste do Brasil, em uma Perspectiva Histórico-Cultural?, objetiva a valorização desse tipo de conjunto orquestral, constituindo-se num documento importante para os estudiosos da cultura popular brasileira, pois reúne um amplo material informativo e uma análise aprofundada sobre o tema, que, antes, não dispunha de uma fonte de pesquisa mais substancial. (*) É MEMBRO DA COMISSÃO ALAGOANA DE FOLCLORE