Opinião
Depois da bonança
Após quatro anos de queda, o número de famílias com rendimento per capita inferior a um quarto do salário mínimo voltou a crescer em 2015, de acordo com o IBGE. De acordo com a classificação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), famílias com renda de até um quarto do salário mínimo per capita vivem na chamada pobreza extrema. Aqueles que vivem com até meio salário vivem em pobreza absoluta. Para os especialistas, o desemprego pode ser apontado como um dos principais fatores que levaram ao aumento da população que vive abaixo da linha da pobreza. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), divulgada na semana anterior, já havia apontado que, em 2015, o rendimento real do trabalhador caiu pela primeira vez em 11 anos. O dado mostra uma reversão da tendência de crescimento da renda média do brasileiro ao longo da última década. A partir de 2003, o País começou a viver uma época de bonança. Ao tomar posse em meio a forte crise econômica, o então presidente Lula surpreendeu e adotou um conjunto de medidas ortodoxa na economia, que o fizeram conquistar a confiança do mercado. Veio, então, uma fase de grande otimismo em relação à economia brasileira. O país chegou a crescer 7,6% em 2010. Os salários cresciam, o desemprego ia para zero, a pobreza e a desigualdade caiam. A ascensão da classe C era festejada com a ampliação do consumo. A crise econômica internacional em 2008 atingiu o Brasil de forma menos intensa do que outros países, e o governo adotou como estratégia a ampliação do crédito estatal. Mas esse mecanismo atingiu seu limite. No governo Dilma, as contas públicas se deterioraram. Em 2014, houve forte desaceleração. O País entrou em recessão, o desemprego aumentou. A presidente foi obrigada a fazer um duro ajuste, mas acabou afastada por não dispor de uma base sólida no Congresso. As medidas adotadas até aqui pela equipe econômica do presidente Michel Temer ainda não surtiram efeito, e a desconfiança e a incerteza permanecem. Mesmo as previsões de uma retomada do crescimento em 2017 parecem agora fruto de um otimismo exagerado. Para quem perdeu emprego e renda, resta a esperança de que a fase mais grave da recessão tenha passado.