Opinião
Divas e leitos
RONALD MENDONÇA* Vivendo seu inferno astral ? agora é a vez da dengue hemorrágica ?, o Ceará encostou na impressionante marca de quase 40 mortes, nos últimos dias, entre os moribundos que aguardavam leitos numa UTI. Fúnebre lista que em boa hora a mídia encarregou-se de monitorizar, sem o que, dificilmente, alguma medida sairia do papel. Mesmo assim, por conta da lerdeza com que se atuou, muitos pacientes continuaram a despedir-se antes ? macabro detalhe que apressou a solução do problema. Longe de ser apenas cearense e de tampouco restringir-se a leitos de UTI, a crise de vagas é uma praga no País inteiro. Em Alagoas a questão não é menor. Engessadas pela alta demanda e pouco escoamento, as UTIs dos hospitais públicos vivem apinhadas. Enquanto isso, as dos hospitais particulares conveniados vivenciam o conflito entre contrair os esfíncteres para os usuários do SUS e permanecer aberta ou encarar todos e quebrar em dois tempos. É que a diferença entre o custo com o doente e o que é pago é muito grande. Como podem R$ 170,00 cobrir despesas médias de mais de 1 mil reais num só dia de internamento? Imaginem o que é ter vários doentes do SUS ao mesmo tempo? A crua verdade é que de tão recorrente, parece que já se lavou as mãos para as remarcações de cirurgias do SUS. ?Intimado? pela imprensa, o Ministério da Saúde socorreu o Ceará, mas, fingindo não ser com ele, cobrou dos gestores locais o milagre da multiplicação dos leitos. De quebra, pressionou a rede privada, sem admitir claramente a colossal discrepância no valor das diárias. A dureza é que, em relação à Saúde, ninguém espere grandes investimentos do novel governo, pelo menos a curto (ou médio?) prazo, posto que, no momento, revela-se muito mais inclinado em fazer festa para os gringos. A letargia da própria sociedade é outra vertente singular. Quando Fidel castrou a vida de três cubanos até que se viu uma certa indignação. Agora, na pátria-mãe-gentil, 40 pessoas poderiam ter tido melhor sorte e uns poucos, apenas, se manifestam. A propósito, talvez esteja aí uma oportunidade de o autor da novela Mulheres Apaixonadas aterrissar e dar uma mãozinha. Em vez de o glamouroso neurocirurgião César, personagem do ator José Mayer, apenas carimbar receitas nos doces vales e nas dunas macias de ardentes divas, como ?médico? seriam bem-vindas algumas falas sobre a saúde, inclusive a carência de vagas. Em UTIs e enfermarias. (*) é MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL