Opinião
Entre o homem e a arte
Dom Fernando Iório * A caminhada humana é sempre aprendizagem. Na vida apren-demos a ser, a fazer, a ser solidários. Sim, na vida, aprendemos até a chorar e a não dividir as lágrimas entre o homem e o que ele produz. Em 1997, por ocasião do terremoto que destruiu parcialmente a Basílica de Assis, houve muitos que choraram os mortos, avaliando que um homem tinha mais valor que 100 basílicas. Outros choraram sobre a perda de vidas humanas e sobre o patrimônio artístico que, conforme eles, valia mais que as vidas dos seres humanos. As declarações de uns e de outros bem simbolizam o conflito real de sentimentos que se desenvolve dentro de nós que ainda labutamos para atingir a verdadeira estatura do homem e aquela da arte, vez que o homem só é homem se pode pertencer à arte, da mesma maneira, a arte só é arte se pode contar com um homem que a cultive. O homem não tem valor algum se não consegue exprimir algo que ultrapasse sua vida biológica e a arte é uma forma desse ultrapassar. Na verdade, não teria a arte valor algum se não refletisse o transcender do homem, a sua superação da condição animal. Chorar mais pelo homem do que pela arte, ou vice-versa, significa ignorar a essência do homem e o significado da arte. Seria sepultar os mortos des-conhecendo sua qualidade humana e tornar a arte pó sem nela reconhecer a marca do homem. Ao percorrer esse caminho, que na arte indica ao homem o ponto de sua transcendência e, no homem, indica à arte o sentido de sua expressividade, iremos ultrapassar o pensamento que, apenas, sabe avaliar contrapondo uma coisa à outra se compreendermos, claramente, esse nexo. Choraremos os que morreram, como é digno que se chore um homem, sem deixar de lamentar a perda das obras de arte, não com lágrimas de negociante que avalia o valor, mas com lágrimas de quem enxerga na arte o signo do homem, a imagem da sua necessidade de se exprimir além da existência biológica. Vinculados um ao outro, homem e arte assinalam o seu pertencer à terra, portanto ao seu destino perecível. Por isso, chorar a perda de uma obra de arte não é diferente de chorar a perda de um homem. Não vamos dividir nossas lágrimas entre a perda de vidas humanas e a destruição de obras de arte, vez que a vida só é humana, se o homem se exprime além da matéria, sem esquecer que essa expressão só é possível na precariedade da matéria. Se soubermos erguer-nos à altura dessa dor que guarda a memória da precariedade da matéria artística e humana, vamos aprender a chorar e não dividir ou contrapor, diretamen-te, o choro pelos homens e o chorar pela arte. A partir desse refletir, talvez não seja verdade que uma vida humana valha mais do que 100 obras de arte, porque não é humana a vida que não transcende a si mesma nas formas do espírito de que a arte é a expressão maior. (*) é bispo de Palmeira dos Índios