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Opinião

Sinceridade de Naamã

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DOM FERNANDO IÓRIO * General do rei de Damasco, estava Naamã, duplamente, imundo: no corpo, porque acometido de lepra e na alma, porque adorava Remon e não conhecia Javé, o Deus verdadeiro. O roteiro de sua história, contido no Livro dos Reis, capítulo V, é extremamente popular quanto ao seu caráter, entretanto ilustra diversas características da vida em Israel: a superioridade do Deus de Israel sobre os deuses de Damasco e o poder do profeta como salvador e defensor do povo. Através de sua serva, foi Naamã informado da existência, em Israel, de um homem de Deus, chamado Eliseu, com poderes extraordinários. Dirige-se o general leproso até o profeta que lhe manda um servo pedir-lhe que vá banhar-se nas águas do Jordão. Indigna-se Naamã que esperava do profeta o ritual de impor-lhe as mãos, limpando o da lepra, por uma força divina. De logo, recusa-se a ir ao Jordão purificar-se. Advertido, entretanto, pelos companheiros, convence-se de que deve obedecer à ordem recebida. Vai ao Jordão, lava-se sete vezes e, de repente, torna-se sua carne tenra, como a de uma criança. Naamã, curado, agradece ao profeta e emite sua profissão de fé: Reconheço que não há outro Deus, em toda a terra, se-não o Deus de Israel. De então por diante, manifesta ao profeta a decisão de não adorar outros deuses a não ser Javé. Convertido ao Deus verdadeiro, sente como se tornara, novamente, criança no corpo e da mesma maneira na fé. Regressando para sua terra, seria, de certo, obrigado a acompanhar o Rei, nas cerimônias pagãs celebradas no templo de Remon. Seria, na verdade, um gesto exterior de idolatria. Confessa a Eliseu este seu pecado inevitável, pedindo-lhe um pouco de compreensão por esta sua fraqueza. Pelo menos em mim a sin-ceridade de Naamã, em reco-nhecer sua fraqueza, despertou imensa simpatia. Mas, que responder? Como conciliar a coerência cristã com as normas morais e a misericórdia com o pecador? De certo, muitos moralistas iriam entrincheirar-se nos cânones do Direito Canônico; outros ameaçariam o infeliz que ousa falar com tamanha impertinência... Eliseu limita-se, no entanto, a dar umas palmadinhas nas costas de Naamã, dizendo-lhe: Vai em paz. É, de todo, evidente que não se deve aprovar o mal. En-tretanto, mister se faz reconhe-cer existirem situações concre-tas, bastante problemáticas, nas quais não é possível a aplicação das normas, ao pé da letra. O ideal cristão não se con-quista, de chofre, de repente, de inopino, chega-se a ele, após longa caminhada. Não pode-mos exigir que corram todos com a mesma rapidez na arena da vida. Mostram os dirigentes de nossas comunidades a mesma compreensão de Eliseu em re-lação aos irmãos em situações semelhantes? Nesses casos, que mais valor tem para nós - a lei ou a pastoral da misericórdia? Eliseu torna-se modelo para quantos pastores são responsá-veis pelos ministérios de nossas comunidades. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS

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