Opinião
Zé do Cavaquinho
Luiz Gonzaga Barroso * No fim da década de 60, a bossa nova já havia conquistado seu espaço no cenário musical brasileiro; as canções de protesto, a tropicália e as músicas dos festivais revelavam Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e Edu Lobo, enquanto o movimento da jovem guarda estava no auge liderado por Roberto Carlos. Naquele tempo, as demais expressões da nossa música popular andavam praticamente desaparecidas, inclusive o choro, gênero tradicional que consagrou Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Jacó do Bandolim e Valdir Azevedo. Uma noite eu estava num barzinho da Praça do Pirulito, quando chegaram: o Paulo Ataíde (violão e cavaquinho), o Maranhão (violão), o Alvacy (tantã), o Gilson Moreira (pandeiro) e um senhor cinqüentão, a quem não conhecia, empunhando um violão tenor (instrumento de quatro cordas, também chamado de manola, apropriado para solistas). Logo ocuparam uma mesa, chamando a atenção os choros executados pelo cidadão desconhecido, que mais tarde, ali mesmo, fiquei sabendo que se tratava do Zé do Cavaquinho, cujo verdadeiro nome era José Rodrigues de Moura, compositor, boêmio inveterado e dono de um bar (Trovador Berrante) na cidade de Viçosa. Alguns anos depois consegui mais informações sobre sua obra musical, sua vida boêmia e suas histórias engraçadas, muitas das quais imortalizadas pelo ator e compositor Mário Lago, no livro Chico Nunes das Alagoas, excelente biografia do repentista cognominado Rouxinol de Palmeira. Ele era avesso à gravação de suas histórias e de suas músicas. Agora, graças à iniciativa do poeta Sidney Wanderley e do escritor Dênis Portela de Melo, Zé do Cavaquinho, que faleceu em 1981, aos 70 anos, volta a ser lembrado, tendo parte de sua produção musical recuperada, com a gravação do CD Escorrego do Urubu, reunindo 14 choros do seu repertório de mais de 50 músicas inéditas. No disco recém-lançado, o sotaque dos choros que escutei há mais de 35 anos, numa mesa de bar, está bem interpretado pelos quatro filhos e um neto do compositor, a respeito de quem o notável Mário Lago fez o seguinte comentário: O apelido Zé do Cavaquinho tão bem lhe assenta, porque realmente é uma fera tocando, pela técnica que ainda conserva e pela genial musicalidade. Assim, mais do que uma justa homenagem a um autêntico artista popular, o CD Escorrego do Urubu passa a ser uma referência importante para os chorões alagoanos. Uma boa notícia para todos nós. (*) É advogado e membro da Comissão Alagoana de Folclore.