Opinião
Amor de mulher
Ronald Mendonça * Chegou ao fim o calvário particular da americana Terri Schiavo. Como todo calvário, houve um Judas que traiu, um Pilatos que lavou as mãos e vários Pedros que negaram. Do ponto de vista médico, nem tinha morte encefálica, tampouco encontrava-se em coma, posto que conservava funções autonômicas (vegetativas), inclusive o ritmo sono-vigília. Privada pela Justiça do mais elementar dos direitos humanos, a alimentação, Terri foi impedida até de receber água através de tubo inserido no seu corpo. Há 15 anos lançada num doloroso quadro conhecido como estado vegetativo persistente, depois de acidental parada cardíaca, a jovem tornou-se um peso morto, um fardo incômodo e dispendioso, numa sociedade que idolatra a capacidade produtiva. É claro que a ordem judicial abriu uma avenida e uma previsível banalização paira como uma séria ameaça ao direito de viver dos portadores de outras moléstias graves e irreversíveis, reais ou imaginárias, tais como depressão, diabetes, Alzheimer, Parkinson, derrames cerebrais, câncer, dentre outras. Como se sabe, seres humanos, em situações-limite, muitas vezes concluem que pôr fim à vida pode ser alternativa ética. Aliás, filmes recentes, inteligentes, um tanto apelativos, é bom que se diga (As Invasões Bárbaras e Mar Adentro), conseguiram semear a idéia de que uma decisão aparentemente amadurecida sobre a própria morte pode vir a ser opção palatável. Falando-se de filmes, também não faz muito tempo, o diretor espanhol Almadóvar, caminhando na contra-mão da eutanásia, criou o inverossímil Fale Com Ela, no qual uma jovem recupera-se de estado semelhante ao da americana, a partir de um estupro. A vivência com pacientes em estado vegetativo ou na penúria de sombrias doenças degenerativas, permitiu-me testemunhar eloqüentes provas de amor. Conheci um chefe de família que durante anos ficou preso a um leito sem dar o menor sinal de interação. Sua mulher e seus filhos não iam dormir sem relatar-lhe o que fizeram durante o dia; muitas vezes aconselhavam-se ou sussurravam-lhe intermináveis confidências. No dia em que uma das filhas estava para noivar, o pretendente, já envolvido na atmosfera, fez emocionado pedido ao pai da moça, na presença de familiares e amigos mais íntimos. Vítima de uma intercorrência respiratória, meu cliente levou para o túmulo os segredos e os mistérios desse singular e fascinante relacionamento. (*) É médico e professor da Universidade Federal de Alagoas.