Opinião
Uma enfermidade milenar
José Medeiros * Na década de 60, e, nessa época, eu dirigia o Sanatório General Severiano da Fonseca, quando recebi telefonema do dirigente do Serviço Nacional de Tuberculose: Medeiros, você já pensou em transformar o Sanatório, que só trata de tuberculose, num hospital geral? Em vários Estados, essa idéia vem sendo trabalhada: metade dos leitos são destinados à tuberculose e o restante a especialidades de clínica médica. Acrescentou: Pelas estatísticas de que dispomos, a tuberculose está em declínio e a enfermidade poderá ser erradicada dentro de 20 anos. Não contive o assombro, diante dessa informação surpreendente. No dia seguinte, reuni os médicos do Sanatório que relutaram em aceitar a transformação, mas, posteriormente, acataram os argumentos oficiais. Entretanto, o período de transição para alcançar um outro modelo hospitalar foi bastante longo. Uma radical mudança, pois, até então, eram mantidos cerca de 160 doentes internados, muitos deles irrecuperáveis, remanescentes de uma época anterior ao aparecimento da estreptomicina e da hidrazida. Essas medicações fizeram verdadeiros milagres na cura dessa afecção. Tão extraordinário foi esse efeito, que levou à euforia de que a enfermidade seria debelada; daí por diante, restava somente controlar os novos infectados. O tempo mostrou que essas esperanças não corresponderam aos fatos. Muitos doentes melhoravam, rapidamente, mas abandonavam o tratamento, e, ao voltar, os remédios já não faziam o mesmo efeito, criando as famosas resistências. Viravam doentes crônicos, sem possibilidades de cura. No campo social, as condições agravantes de pobreza, miséria, e ausência de educação sanitária, contribuíram para manter bem vivo esse quadro infeccioso. Não disponho de números oficiais da incidência da tuberculose, em Alagoas. Há dois anos, o Brasil foi duramente criticado em simpósio na Espanha, por não cumprir metas estabelecidas para controle dessa endemia. O fato teve muita repercussão e o governo federal comprometeu-se em ampliar esforços para atenuar a situação. Prometeu uma ação mais eficaz e utilizar a mídia - de maneira mais efetiva - veiculando ensinamentos de como evitar as contaminações. O Ministério da Saúde dispõe de espaços no rádio e na televisão que podem ser mais bem aproveitados. Será que essa velha doença, conhecida desde a antiguidade, constitui destino inexorável e irreversível com a qual teremos sempre de conviver? Continua dizimando a população e desafiando os avanços e as conquistas da Medicina. (*) É médico e ex-secretário de Saúde e de Educação