Opinião
Banaliza��o da vida
MILTON HÊNIO * Fico horrorizado ao ler na impressa sulista que 205 pessoas foram assassinadas no último fim de semana no Estado de São Paulo. É uma verdadeira guerra. É um verdadeiro desprezo que o homem tem pelo seu próximo. A banalização da violência tornou-se insuportável no mundo atual. E a vida que é um dom de Deus passa a não ter nenhum apreço nos dias de hoje. O próprio homem não dá valor a sua própria vida, fazendo e desfazendo do seu corpo como se fosse de cimento. A morte assusta a muita gente. Pensar em deixar esta vida amedronta uma boa parte das pessoas. Como dizia o saudoso poeta e compositor Vinícius de Morais: ?Eu não tenho medo da morte; eu tenho saudades da vida?. É verdade. Se o direito supremo de cada homem é o direito à vida, o seu direito supremo é o de vivê-la em sua totalidade. A vida vivida em plenitude, em paz de espírito, é um prêmio quando se alonga. No final de sua longa vida o teólogo alemão Karl Barth costumava repetir: ?Desejaria tanto viver mais de um século. Não que tema a morte, mas porque me extasio com a vida?. A grande arte da vida é fazer da vida uma obra de arte. O padre Roque Schneider diz muito bem: ?Como os poetas, os homens de fé vivem com toda a intensidade a angustia e o deslumbramento da condição humana?. A esperança jorra sempre luz em caminhos por onde passamos. Que haveremos de morrer, isso é inevitável. Ninguém é eterno. Terrível é o indivíduo morrer antes do tempo, jovem, pelas mãos dos bandidos que andam soltos por aí. E é lastimável que as perspectivas dessa violência são desalentadoras. Dizia o médico Myra e Lopes: ?Não ficamos tristes por pensarmos na morte; ao contrário, por estarmos tristes é que pensamos nela?. É certo. Como se pensar na morte se estamos felizes, contentes e risonhos! Ame, assim, a vida e ela saberá retribuir, dando-lhe em troca a saúde, beleza, bem-estar, para que você possa vivê-la intensamente, enquanto a morte não chega. Os deprimidos, pela angústia que sentem, de quando em vez pensam nela. Mas, passado o pesadelo, voltam a querer bem à vida. A morte é, assim, a chave do segredo da vida. Da vida vivida em sua plenitude. É vivendo que amamos a vida. E se o sofrimento, a dor, as injustiças, os absurdos que encontramos ao longo do caminho são tropeços inevitáveis, a morte é a certeza que nos chegará um dia. Tenho absoluta convicção, pela confiança que tenho em Deus, que nossos entes queridos que já morreram, aqueles a quem amamos muito, continuam a nos proteger, revivendo ao nosso lado, por essa humilde e invisível presença de cada dia, de cada momento, com que banhamos de esperança a nossa saudade. Saudade perene na eternidade. Permanente no tempo. A alegria de viver tem que se tornar uma atitude quase constante, fazendo parte dos nossos hábitos diários, procurando num mundo cheio de conflitos afastar-se sempre do perigo. O bem e o mal continuam lutando como forças antagônicas porque o homem de ontem é o homem de hoje e será o homem de amanhã; com seus conflitos, seus complexos, seus dramas de consciência e sem um rumo que lhe dê sentido à vida. Por isso o homem continua ser o ?lobo do próprio homem?. O indivíduo só terá uma vida longa e feliz no dia em que a humanidade se conscientizar que a vida é uma passagem e que nesta caminhada o indivíduo tem que ter o espírito elevado, solidário em relação ao seu próximo. (*) É MÉDICO [email protected]