Opinião
Navegar
Eduardo Bomfim* Na atividade política há uma mistura química bastante variada. Dela fazem uso desde os políticos menores até os estadistas. O problema é como empregá-la corretamente. Sabemos que a militância, partidária ou não, é uma atividade de profissionais e não importa o grau dessa profissionalização. O que se torna significativo é o discernimento de que nela encontram-se sempre presentes todas as paixões humanas. Das mais sublimes, algumas até heróicas - dependendo do momento e circunstâncias históricas - às conciliatórias, àquelas que impõem a bravura da ruptura, até as mais sórdidas. Portanto, como a política é depositária de todas estas manifestações e interesses, faz-se necessário relembrar o poeta português Fernando Pessoa: navegar é preciso. Ocorre que tal formulação seria de uma terrível imprecisão se não fosse complementada por outra máxima: é preciso saber navegar, guiar-se pela bússola do caráter que nos indica os passos, as extensões, os limites da ação concreta. E entender com sabedoria que, na vida como na política, nem sempre o que é correto prevalece, e mesmo assim bater-se pela razoável virtude do possível, justo, sabendo que a sociedade humana é complexa e falha. Assim, navegar neste oceano turbulento e imprevisível é bem mais que preciso: trata-se de algo fundamental guiar-se através desse oceano sem perder os princípios, o norte, a causa. É preciso evitar as trilhas perigosas para permanecer fiel ao ideário. A estas considerações, alguns chamam de postura visionária, outros de coerência. O pragmatismo na atividade política é algo inevitável, mas, como diz a propaganda: use com moderação. Bom mesmo é o legado do grande antropólogo Darcy Ribeiro, ministro da Educação no governo Jango, vice-governador do Rio na gestão de Brizola e senador. Em palestra na Universidade de Sorbonne, já ao fim da vida, quando recebeu o maior título conferido por aquela instituição, Darcy Ribeiro nos legou mais um ensinamento: Vivi sempre pregando e lutando, como um cruzado, pelas causas que me comovem - disse ele. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isto não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas. Para as novas gerações, em grande parte impregnadas de individualismo, ausência de sentimentos sociais, humanitários e patrióticos, a trajetória, com grandes acertos e vários defeitos de Darcy Ribeiro, é um senhor exemplo. (*) É secretário-executivo do Ministério da Coordenação Política