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Opinião

A primeira comunhão

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Zaida Lins de Lima* Verão de 1950. Beron, Diana e eu, vestidos a caráter para a 1ª comunhão. Meninas, parecíamos noivas miúdas. De branco, vestido comprido, grinalda e véu na cabeça, além de luvas. Lia, a engomadeira, chegou atrasada com nossas roupas. Atravessamos correndo a rua para alcançar a igreja de Sta Rita, lado oposto à nossa casa. Crianças que o padre Wanderlei conseguira arregimentar para a cerimônia. Sentados nos bancos da frente, suor escorrendo pelas costas, pensei aflita: - E agora? Serei excomungada? Esqueci de dizer ao padre que menti para mamãe. Usei o troco do verdureiro para comprar um cajuzinho de açúcar, na venda do seu João. Falei que não sobrara dinheiro. E se a hóstia queimar minha língua? Três noites de insônia antes de me confessar, decorando o ato de contrição. Confessar o quê?A madre superiora afirmara que se disséssemos a verdade sentiríamos a alma leve como uma pluma. Não poderia haver alegria maior. Eu só pensava nos docinhos, no bolo de cobertura e nos guaranás que nos aguardavam após a comunhão. Tudo já arrumado na mesa da sala principal. Cheiro de festa... A fome já começara a apertar. Naquela época, comungar, só em total jejum. Não podia nem beber água. - Só se for para afogar Jesus Cristo. Deus me livre! E o padre, entusiasmado com a platéia dos familiares que entupia a pequena Igreja, falava e falava. Sermão comprido, induzindo sono! A barriga roncou alto. Não sei se de lombrigas ou de vazio. As meninas ouviram e puseram-se a rir, colocando mãos na boca para não desfeitear a colega. Séria e compenetrada aguardei a hora de receber a Comunhão. Chegou a minha vez. Fechei os olhos com força, e estirei a língua. Engasguei com o corpo de Cristo. Boca seca entalei. Desejei tossir, mas isto seria uma ofensa a Jesus, que viera morar no meu coração. Justamente naquele dia, imagine! Vermelha e aperreada, pensei: - Vou cair dura, agora mesmo! Isto é castigo por ocultar pecado. Mas o engasgo passou e nem tive tempo de sentir a leveza na alma. Só pensava em correr para casa, desvencilhando-me dos abraços de parabéns. No caminho esbarrei no Beron, já todo sujo e suado, enrolado às tapas com um menino que viria a ser um dos grandes cantores da atualidade. Djavan escutara um impropério e revidou. Meu irmão o chamara de filho da p. Parei, arrebanhando a saia com uma mão, e com a outra, sua orelha. Gritei: Lembra-se que comungou hoje? Ele, limpando a roupa com a mão, falou: - É mesmo...! Mas amanhã você me paga, viu? seu... Enquanto o arrastava dali, mostrou para o garoto, um dedo em posição obscena. (*) É advogada

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