Opinião
Trabalho e vadiação
Ronald Mendonça * No auge da fama, lá pelos anos 70, o humorista Chico Anísio dramatizava um saboroso texto que discorria sobre o jeito de ser do brasileiro. Num dos trechos falava sobre a possibilidade - à época remotíssima, por sinal - de o Brasil entrar na corrida espacial e enviar um foguete. Na hora do lançamento, que seria em Jacarepaguá, haveria um cordão de isolamento para afastar a imprensa e outros curiosos habituais, momento em que, para evitar problemas, o encarregado, querendo manter as crianças distantes, ameaçava: Fiquem longe que o bicho vai partir. Daí vai sair um foguinho que pode queimar a bundinha. Como era de se esperar, o lançamento daria chabu, havendo necessidade da presença de um especialista. Como não existia nenhum por perto, viria a inevitável pergunta: Alguém aí entende de foguete? Nisso, apareceria um negão roliço com o macacão lotado de graxa garantindo que podiam confiar, que foguete é comigo mermo. Depois de sucinta avaliação, arremataria: Aqui não dá pra fazer nada. Preciso levar o bicho pra consertar em casa. Seguindo a leitura, Chico fazia uma referência de como seria um papa morando no Rio de Janeiro. Circulando pela Cidade Maravilhosa, Sua Santidade seria saudado pelos cariocas com a informalidade habitual: E aí, Santo Padre, tudo em cima? Em vez de métodos anticoncepcionais, aborto, casamento de padres, ecumenismo e outros temas polêmicos, o chefe dos católicos seria instado a responder: E agora, a nossa reportagem vai ouvir a opinião de um torcedor que sabe o que diz (ele é assim com o Homem): hoje dá Flamengo na cabeça, meu querido? Na sua santa opinião, quem é melhor: Zico ou Rivelino? Voltemos ao terceiro milênio. O mundo hoje lamenta a perda de João Paulo II, líder carismático de quem já se disse quase tudo. De fato, pode-se concordar ou discordar dos pontos de vista desse caminheiro que ontem foi enterrado. Num aspecto, contudo, é unanimidade: João Paulo jamais será conhecido como um homem preguiçoso. De natureza inquieta, o corajoso apóstolo trabalhou até a hora da morte. Pois é (com a licença do poeta e jornalista eletrônico Pedro Cabral), numa edição atualizada da piada do Chico Anísio, o nosso caótico católico presidente Lula da Silva seguiu para a cidade eterna para assistir aos funerais do papa. Na caravana da alegria, ex-presidentes, líderes políticos e religiosos, inclusive uma babalorixá, que, aliás, terminou não embarcando. Com o acesso limitado ao cerimonial, para muitos a travessia, por conta da viúva, é puro exercício de vadiagem, boca-livre e bajulação. (*) É médico e professor da Universidade Federal de Alagoas