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Opinião

Um ébrio ao meu lado

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Micheliny Tenório de Lima * Imaginem vocês a surpresa que se tem ao entrar em um ônibus coletivo ao meio-dia e se deparar com um cidadão, no alto dos seus 60 anos, totalmente embriagado. Ele me contemplou com sua presença ao meu lado, no mesmo par de acentos. O que mais me intrigou é que haviam outros lugares vagos e sua atitude levou-me a uma inquietação que perdurou por toda a viagem. Ao adentrar naquele veículo de proporções generosas, ação realizada pela porta dos fundos, o ébrio anarquizou com o motorista declarando que tinha entrado no ônibus sem o condutor perceber, ou seja, sem a necessidade de pagar passagem ou apresentar o registro de identidade. Naquele momento notei que aquela atitude fazia-o sentir-se poderoso. E ao sentar perto de mim começou a falar em tom alto para que todos que estavam no ônibus ouvissem, numa tentativa de chamar a atenção alheia para o seu discurso sobre família, vizinhos e bares. Começou logo dizendo que sua mãe, aos 89 anos, andava a cavalo, bebia cachaça e fumava maconha. Entretanto, o ébrio entrou em contradição e diante de todos disse que se sua mãe soubesse de suas declarações, ele seria deserdado. Como ninguém, aparentemente, mostrava-se incomodado com tal sandice, ele tratou de atacar um antigo vizinho, ao dizer que um leve desentendimento levou-o a procurar uma outra residência, em outro bairro, argumentando que não queria misturar as tintas. Então refleti: que ser humano compreensível e desprendido de apegos materiais, preferiu trocar de endereço a criar uma inimizade. São pessoas assim que fazem falta ao mundo: tolerantes. Porém, mal acabei meu pensamento, lá veio ele de novo com suas colocações. Se bem que dessa vez referia-se muito bem à apreciação ao álcool. Prontamente ergueu-se da cadeira e solicitou ao motorista que no primeiro bar que o ônibus passasse, fizesse o favor de parar para ele descer. Caso contrário, que seguisse a viagem até chegar no bar casa da p.. Eu já não mais suportava toda aquela exposição e rezava baixinho para chegar o quanto antes nesse tal bar. Passei toda a viagem olhando pela janela, evitando um confronto com o cidadão. Quando menos esperei, eis que surgiu a luz: a porta traseira do ônibus abriu-se e o ébrio partiu. Agradeci o favor daquela ausência, mas não atentei para observar onde ele desceu. Apenas o ouvi se despedindo de todos e desejando uma boa viagem. São situações como essa que fazem eu concordar com uma das máximas de meu Pai: Um homem bêbado é outro homem. Imaginem vocês, se na condição de sóbrio, aquele Senhor teria realizado toda aquela palestra? (*) É jornalista

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