Opinião
Humberto Cavalcanti
Guilherme Palmeira * A morte, escreveu o filósofo francês Jean-Paul Sartre, é o único inevitável da vida. Sua afirmação tem a força da lógica que o levou a essa conclusão: nascemos casualmente, vivemos precariamente, morremos inevitavelmente. Conformar-se com este desígnio pode ter sido um conforto e um consolo para os existencialistas como ele, mas não para toda a humanidade. A injustiça da morte, sabemos os que estamos vivos, é mais cruel que as injustiças da vida. Estas podem ser superadas, corrigidas e até mesmo amenizadas. O infortúnio, a pobreza, a adversidade e a doença podem ser injustas, mas não são inevitáveis, como a morte. Daí sentirmos, com mais dor a intensidade, as mortes que nos parecem injustas, como as daqueles a quem mais queremos, nossos parentes, nossos amigos, daqueles a quem amamos e dos que mais carinhosamente prezamos. Estes foram os sentimentos que me assaltaram, quando tomei conhecimento da morte de Humberto Cavalcanti. A meu pai, e depois a alguns amigos, devo muito do que aprendi na vida; Humberto era um deles, o mais chegado. Rui Palmeira, o mestre, o guia. Humberto, o conselheiro, o companheiro. Foram úteis suas lições, tanto na vida pessoal, como na vida pública. Posso dizer mesmo que foram suportes e inspiração em alguns dos momentos cruciais que todos nós enfrentamos nas trajetórias de nossas existências, Como chefe da Casa Civil no período em que governei o Estado, ele foi responsável por muitos dos acertos de minhas decisões. Era íntegro como ser humano, correto como cidadão, respeitado como profissional e dedicado como esposo. Por isso sua perda não foi um choque apenas para sua família, parentes e amigos. Foi uma lacuna para toda a coletividade em que conviveu e para toda a sociedade que o admirou na sua grandeza como ser humano de reconhecidas qualidades. Nunca esquecerei quanto foi proveitosa sua amizade, rica sua contribuição para meu governo e marcante sua presença em todas as atividades que desenvolveu em sua existência. Sartre pode ter nos dados motivos e razões para nos conformarmos com a morte, aceitamos sua inevitabilidade e lamentamos a injustiça que ela significa para as criaturas de Deus. Mas nem sua contribuição como filósofo nem a genialidade de sua concepções sobre a vida e a morte podem justificar a morte de criaturas privilegiadas pelo Criador, como a de Humberto Cavalcanti, a cuja existência todos nós que o conhecemos, devemos tanto, como é o meu caso. Exatamente por isso o pranteio sem que possa me conformar, a despeito das lições de Sartre. (*) É ministro do Tribunal de Contas da União