Opinião
Exclus�o social
RUYTER BARCELOS * Mais uma vez, passando por um local público, pude observar as barracas de plástico preto, casas temporárias daqueles que necessitam protestar para chamar a atenção da sociedade para o seu insolúvel problema. Verdadeiros ?fantasmas? perambulando pelas praças, ao longo das estradas, como se estivessem sentados à beira do caminho da vida, esperando a solução milagrosa cair do céu. Interessante é que como chegam se vão: em silêncio. Talvez para não despertar nossa consciência ou porque estejamos tão surdos que não ouçamos mais seu protesto. Insensibilidade ou não, mas a verdade é que não enfrentamos como devíamos a questão social que aperta nosso horizonte. Ao me aproximar, foi fácil identificar as péssimas condições de higiene, o nada fazer, deixando o tempo passar, como se fosse possível resgatá-lo depois, enquanto as lideranças negociam a pauta de reivindicações ou entregam sua ?carta aberta?. As crianças? Bem, as crianças nos conduzem à reflexão. A Reforma Agrária como está desenhada mais parece o sistema de Capitanias Hereditárias. Alguém pode dizer quantas tiveram êxito? Apenas Pernambuco e São Vicente, se não renego a História do Brasil. Alguém sabe dizer quantos assentamentos deram certo? Um aqui e outro acolá, mas concordo que não sei dizer ao certo quantos são. Então, aí está o cerne da questão. O êxito, caso fosse em grande número, não conduziria à campanha publicitária institucional, a fim de calar aqueles que como eu criticam o atual modelo de Reforma Agrária? Mais ainda, os sem-terra continuariam a protestar? Um assentamento necessita constituir-se em uma cooperativa, caso contrário acaba sendo um pedaço de terra para a agricultura de subsistência, onde o agricultor planta para viver. Caso enfrente condições climáticas adversas, perde sua colheita, fica endividado, vende a terra para pagar as dívidas, até porque não sabe ser devedor e a vergonha é maior, afinal ele é uma pessoa honesta e honra seus compromissos. É o dever ser, pois a realidade pode ser outra. Em uma cooperativa, o agricultor terá a assistência de engenheiros agrônomos, o apoio de instituições governamentais para a pesquisa da melhor semente para aquela terra, financiamentos para a compra de máquinas e implementos agrícolas, com um prazo de carência que lhe permita respirar, plantio com seguro contra as intempéries, e a venda da colheita será feita em bloco, obtendo melhores preços, vale dizer, o agricultor possui uma infra-estrutura que lhe cria condições para desenvolver suas atividades com segurança e proteger sua família das incertezas do mundo atual, criar seus filhos dentro dos conceitos aceitos universalmente como de cidadania, isto é, acesso garantido à educação e à saúde pública, com segurança. Dentro da cidadania, as crianças têm futuro. Diante dos acampamentos dos sem-terra ou sem-teto passamos, olhamos e continuamos nosso caminho, pois, afinal, normalmente julgamos que o problema seja governamental. A nós, não cabe a solução. Seguimos... Contudo, o horizonte se estreita. A exclusão social tem proporcionado diversas formas de violência e, para enfrentá-la, cada vez mais compramos carros blindados, erguemos os muros das casas, colocamos sistemas eletrônicos de vigilância, como se tais dispositivos afastassem a agressão de nossa família. Falta pouco para que não saiamos mais de casa, mas, mesmo assim, o problema bate à porta. Um sistema que nos conduz à verdadeira exclusão social: a falta de convívio com o próximo. (*) É OFICIAL DA RESERVA DO EXÉRCITO [email protected]