Opinião
O governo Lula
A. SÉRGIO BARROSO* Em se tratando do tempo histórico seria uma tolice proceder a um ?balanço? do governo Lula. Por desenraizá-lo de nossos signos nacionais mais profundos, do passado escravocrata/oligárquico, que somente no pós-1930 sofre sua primeira ruptura estrutural com Vargas e o salto industrializante. A regressão político-social e o rápido aprofundamento da dependência, advindos a partir 1964, sofrem derrotas temporárias em 1985, pela via do Colégio Eleitoral, com a eleição de Tancredo?Sarney. De todo modo, importa apreender que entre 1947-80, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu a taxas médias de 7,1%, a renda per capita 4,2%, enquanto a população multiplicou-se por três: pouquíssimos países atingiram tais índices. Nos anos 80, a queda do PIB vai a 2,3% e colapsam todos os demais indicadores. Na década de 90, para um ingresso médio de cerca de 1,5 milhão de jovens no mercado de trabalho, o PIB estagnou em 2,1%, o desemprego cresceu assustadoramente e cronificou-se. Resumindo: dançando na ?chuva? de capitais especulativos, oito anos de FHC nos tornaram completamente pendurados às luxuosas bodegas do rentismo parasitário do império das finanças; sua promessa de um ciclo econômico ?virtuoso? - em contrapartida às privatizações corruptas e abertura comercial suicida - foi a maior mentira da história republicana! No nascedouro, passou-se a negar o emprego à juventude, com bloqueio e desemprego maciço dos 15 a 24 anos. Democrático, progressista e heterogêneo o governo Lula veio, sim, por subverter a subalternidade absoluta à política dos EUA. Neste terreno, é indiscutível nosso novo e altivo protagonismo em política externa. A integração econômica da América Latina ?caminha a passos mais rápidos do que poderia se esperar?, disse o brilhante Carlos Lessa, do BNDES (?O Globo?, 14/5/2003). Como revelou Conceição Tavares, programas de uma nova política industrial, voltados ao emprego, ?estão no forno?; o Plano Plurianual esboça a nova estratégia de desenvolvimento, ainda nos marcos de uma política econômica essencialmente conservadora. Mas a ?queda-de-braço? já começou. Rapidamente, Lula também revitalizou as bases do pacto federativo, abastardado por seu antecessor, chamando ao debate, já por várias vezes, todos os governadores, inclusive prefeitos. Sua postura é completamente diferente de FHC ? que mandou destruir a organização dos petroleiros na greve de 1995 - na questão fundamental da relação do Estado com os trabalhadores. Seu governo abriga, no primeiro escalão (além de outras forças progressistas), os comunistas do PCdoB, fato inédito em nossa história; presença discreta, todavia destacada com o alagoano Aldo Rebelo na liderança do governo na Câmara. E Lula releva ainda o funcionamento de Conselhos e Fóruns como interlocutores diante de um novo poder político democrático, coisa ironizada pelos jornalões do grande capital. Grande capital e seus ideólogos que sempre tiveram pavor só em ouvir a palavra povo. No plano imediato, há reforma da Previdência, precipitada e equívoca em vários aspectos, o que fez com que o PCdoB, por escrito e há muito, a situasse ?na contramão?. O que é muito distinto de artificializar uma oposição principista, de horizontes nebulosos, disfarçada em purismo ideológico. O caminho será longo e de lutas, mas as possibilidades são esperançosas. (*) É MÉDICO E MESTRE EM ECONOMIA SOCIAL E DO TRABALHO.