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Rumos e sussurros

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EDUARDO BOMFIM* Começamos a viver momentos de intensos debates sobre vários temas fundamentais aos novos rumos que o país está a exigir. Significa o despertar de uma letargia, induzida pela hegemonia de um pensamento que se pretendia único, como se a História tivesse chegado ao seu ponto final. Tal concepção não se restringia à área econômica. Espraiava-se pela filosofia, cultura, administração, planejamento e setores da atividade produtiva. Pode-se afirmar, sem medo de erro, que os efeitos danosos deste império doutrinário foram tremendos e ainda estão carecendo de um diagnóstico mais preciso. Uma geração de alagoanos e brasileiros viveu sob a égide destes preceitos. Não é algo menor. Porque se introduziu, neste período, o cinismo, o individualismo, a competição sem limites ou regras, a vigarice, como um pacote pernicioso, distribuído para toda uma sociedade. Digo mais, contaminou vários indivíduos nascidos em outras épocas, transformando-os em pessoas descrentes de tudo, aniquilados, criticistas atávicos, relativistas totais, desprovidos de causas ou posições, inimigos de quem as possuem, cujos umbigos converteram-se em centros do universo. Através da falsa tese de um liberalismo sob nova roupagem e circunstâncias, uma espécie de laissez-faire pós-moderno, alardeou-se o despropósito do conceito de nação, seus fundamentos antropológicos, o passado e perspectivas sobre o futuro. Daí, já que as contradições haviam, aparentemente, desaparecido, institui-se a ?imparcialidade? das ciências, da economia, da cultura, sob a deslavada mentira da igualdade e do ?livre mercado? entre os países. Nelson Rodrigues afirmava, clarividente, que só acreditava na isenção do sujeito, quando ele declarasse que a própria mãe era vigarista. Os fatos mostraram que esta frase do escritor e dramaturgo aplicava-se igualmente ao neoliberalismo, no que diz respeito às relações entre as nações. Com a derrota acachapante do candidato de Fernando Henrique Cardoso, nas eleições de outubro do ano passado, o povo proclamou nas urnas um sonoro ?Não? ao projeto de continuidade das referidas políticas. Venceram as forças que resistiram durante oito anos, com a consagração de Lula à Presidência da República. Surge, então, um novo período marcado pelo renascimento da polêmica, do confronto das idéias, de campos antagônicos, das visões distintas de classes e interesses de grupos, do acirrado debate sobre os caminhos alternativos ao modelo até então solitário, em sua unanimidade e impostura. Oxigena-se, mesmo sob intensas contradições, a luta de idéias no Brasil. Mesmo assim, de todas as contendas na ordem do dia, destaca-se o combate entre a continuidade e a mudança. Porque o velho foi derrotado, mas não morreu, e o novo, vitorioso, ainda luta por afirmar-se. Porque no seio do próprio governo, existem os que defendem a manutenção, por tempo não determinado, dos antigos modelos financeiro e econômico e aquelas forças que já consideram completada a transição. Trata-se, agora, de reduzir os juros estratosféricos, retomar o desenvolvimento, desconcentrar a renda e definir os caminhos da inclusão social de 50 milhões de brasileiros. Os condenados da terra, como afirmou o poeta. Há muitos encontros e desencontros, posições recuadas, outras de uma radicalização equivocada, etc. A imensa maioria, entretanto, propondo, sugerindo, criticando, buscando a melhor estratégia de uma ruptura com o velho. A controvérsia é sinal de vitalidade política. Os sussurros é que são perigosos, já afirmava Graham Greene. * É ADVOGADO

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