ARTIGO
O EVANGELHO POR TRÁS DAS GRADES
Um vídeo que circulou nas redes sociais nos últimos dias mostra, numa piscina, um pastor batizando o novo irmão convertido para a sua igreja. São centenas espalhadas pelas grandes e pequenas cidades. Uma cena de certa forma inusitada por se tratar de um jovem ex-político promissor condenado a cumprir pena por excessos indevidos com dinheiro público no período em que exerceu mandato. Não é um caso isolado, acontece graças à contribuição dos religiosos evangélicos na tentativa de ressocializar ex-presidiários a partir das penitenciárias. Uma missão bonita e humana praticada não apenas no Brasil, mas em vários países do mundo. Esse duro ofício de evangelização tem obtido resultados que merecem louvores e apoio das comunidades. A compaixão dos evangélicos tem resgatado almas e corações de condenados trancafiados nos presídios, sem esperanças de retornarem ao convívio da família. São seduzidos pelos “atrativos” de uma vida bandida, praticantes de crimes de toda a espécie desde homicídio, roubo, tráfego de drogas e estupro. Nasceram assim, no meio da marginalidade, renegados por todos, vivendo nas periferias onde dificilmente chegam políticas públicas que lhes ofereçam uma longínqua luz no fim do túnel na direção de uma vida digna. Na maioria dos casos, a prisão é um caminho sem volta, em razão da grande população carcerária ser composta de jovens completamente catequizados no mundo do crime, sem escola, amor ou trabalho, falta-lhes de tudo. Estima-se hoje nas penitenciárias brasileiras uma ocupação que vai além dos oitocentos mil presos para pouco mais de quatrocentas mil vagas. A família também nada tem para oferecer além do alcoolismo e violência doméstica, uma rotina que dá audiência às mídias policiais. Tragédias que se repetem cotidianamente nas grandes e pequenas cidades por todos os quadrantes do país. Os evangélicos que levam esse conforto espiritual tão necessário aos presidiários merecem nossa solidariedade e apoio pela voluntariedade de colocarem em risco sua própria integridade física sem distinção entre pessoas. É uma missão apostólica arriscada e perigosa. Entretanto, para cada um condenado que no meio de outras dezenas consegue a conversão e aceita Deus para uma vida melhor, é uma vitória humanitária para a sociedade. O sistema prisional é marcante pela prática da violência, motins que acabam em desgraça como os recentes massacres ocorridos em penitenciárias do Norte e Nordeste. Além da carência de bens materiais básicos, falta assistência de saúde e higiene. São comuns humilhações de toda a espécie, maus tratos, enormes dificuldades para cumprir pena após uma vida de marginalidade e exclusão social. Desconheço, mesmo sendo católico, um trabalho relevante de minha igreja desenvolvido com a mesma intensidade e constância dos evangélicos. Além de outros credos, a Assembleia de Deus, por exemplo, desenvolve um belo trabalho de evangelização e visitação em vários presídios da capital, colhendo os frutos de transformar vidas. No século XIX, a assistência religiosa nas prisões era atribuição exclusiva da igreja Católica, tempos em que também era a religião oficial de dominante. Nos tempos atuais esta liderança prevalece entre evangélicos e espíritas. A velha equação do “Ser brasileiro é ser católico” já não tem o mesmo peso na crença popular.