EDITORIAL
Desenvolve para poucos
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Na última vez em que esteve no Brasil, Muhammad Yunus, conhecido como o “banqueiro dos pobres”, expressou indignação em relação à concentração de renda no mundo. Falou sobre o que pensa de empreendedorismo e disse considerar ilógico o ser humano passar boa parte da vida procurando emprego. Foi em Bangladesh, país situado ao Sul da Ásia, que Yunus fundou há quase quarenta anos o “Grameen Bank”, o banco das aldeias.
Por ter ousado na concessão de microcrédito a pessoas pobres que nunca antes haviam tido acesso ao sistema bancário, Yunus ganhou notoriedade e conquistou, em 2006, o Nobel da Paz. Ele apostou especialmente nas mulheres como gestoras do recurso emprestado para evolução de habilidades. O aval solidário intragrupo de deveres e as amortizações garantiram níveis baixíssimos de inadimplência. Em texto para debate, o professor Fernando da Costa destacou o fato de o “banqueiro dos pobres” ter percebido que as necessidades financeiras eram, em regra, reduzidas e que, portanto, seria possível emprestar pouco a muitos. “Os indigentes se concentram na zona rural. Lá, os agentes do ‘Grameen bank’ vão aonde o povo está. Aqui, aguardam a ida do indigente ao banco na cidade”, escreveu o professor do departamento de Economia da Unicamp. Comparando o que foi descrito com a realidade alagoana, logo se percebe que as semelhanças estão no campo das disparidades e da exclusão social, pois o microcrédito que é aqui ofertado, através da Desenvolve, não alcança a massa de necessitados. O governo aporta tão pouco em recursos que, se abrir mesmo e for “aonde o povo está”, a agência de fomento não vai contemplar. Há pouco recurso disponível, dificuldade na liberação e resguardo em relação à inadimplência. Daí que o pobre, pela condição em que se encontra, é fadado a continuar a sê-lo.
Se o governo de Alagoas fez propaganda para celebrar microcrédito concedido a pouco mais de mil beneficiários, a realidade expõe a gigantesca demanda reprimida por uma chance, pois o Estado possui mais de 150 mil CNPJs. Se, em cinco anos, houve apenas R$ 20 milhões destinados ao microempreendedor, vale refletir sobre as escolhas do governador Renan Filho, que gastou essa mesma cifra em promoção de imagem, apenas no primeiro semestre deste ano.
Ou o governo ousa, muda paradigmas e democratiza de verdade o microcrédito para quem tanto quer evoluir, ou permanece tentando vender a fantasia virtual para quem, no mundo real, peleja e sofre sem empregos e oportunidades.
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