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ARTIGO

As apologias à ditadura

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Montaigne, que viveu em época de grandes conflitos público, escreveu em seus Ensaios (1580-1588) que a inclinação humana, para explicar o mundo através de ficções e a instabilidade provocada por isso, era medonha. Sendo egresso da alta monarquia, lamentou profundamente a arrogância dos poderosos de então ao pretender impor suas crenças “por julgá-las tão importantes e que não recuassem diante da ruptura da paz pública, abrindo portas para todos os tipos de males e perversão dos costumes, levando a guerras e revoluções políticas”.

O uso de ficções, deturpações da realidade e das teorias das conspirações, atinge o seu auge no Brasil atual e tumultua tremendamente o cotidiano político/econômico, dificultando enormemente a almejada recuperação nacional. Começaram, na semana que se finda, com o vídeo veiculado pelo presidente Bolsonaro onde um leão o representava, cercado ameaçadoramente por um bando de hienas famintas que representavam as instituições fundamentais da democracia. Era concretamente um novo ataque às instituições democráticas nacionais. Trilhando a mesma linha de imersão em fantasias e deturpações ideológicas, vieram as versões veiculadas por altas autoridades do governo sobre o envolvimento da Venezuela (um país arrasado por ditaduras) e do Green Peace no desastre ecológico do litoral nordestino.

O ataque às instituições democráticas (STF, órgãos de imprensa, partidos políticos, OAB, CNBB e até o seu partido, o PSL) não é um fato isolado, tem antecedentes de outros ataques ao Supremo Tribunal Federal por membros do clã Bolsonaro, como o famigerado “basta um cabo e um soldado para fechar o STF!”. Esse mesmo Eduardo, que, tresloucadamente, agora ameaçou com um novo AI-5 a democracia brasileira. Infelizmente, esses infames ataques às instituições nacionais alcançam ressonância em parcela do seu eleitorado mais fervoroso, aquela minoria rancorosa que defende qualquer atitude antidemocrática que parta do clã bolsonarista. Essa minoria radical é possuída por aquele fervor falsamente messiânico, que se acredita reformador dos maus costumes e saneador da moral brasileira, mesmo que para isso, “esqueça “, convenientemente, que o filho 01, senador Flávio, é acusado com fartas provas de fazer rachadinhas na ALERJ e estar umbilicalmente ligado às milícias cariocas. É a hipocrisia máxima dos privilégios: “A dureza da lei é para os inimigos, para os de casa, os favores da lei, ou melhor ainda, a ausência total da lei”.

Qualquer outro assunto torna-se irrelevante quando, reiteradamente e cada vez mais atribuladamente, o presidente da República, eleito prestando juramento à Constituição Nacional, desconheça os alertas públicos de que milícias digitais incrustadas no Palácio do Planalto e pagas com recursos públicos pregam o ódio e a destruição da democracia, e desconheça que seus filhos traem o seu juramento, operando pela pregação do ódio e pela instalação da ditadura. Faz-se urgente que as instituições nacionais tomem as medidas necessárias amparadas na Constituição, nas leis e nos bons costumes, para que o radicalismo e o caos não imperem no País. Desrespeitar a Constituição e fazer a apologia à ditadura são crimes com previsão legal para contê-lo. Cumpra-se a lei!

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