ARTIGO
Imprensa e política, uma relação conflituosa
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O casamento entre imprensa e governo, historicamente, nunca deixou de ser uma relação conflituosa e muitas vezes excessivamente agressiva. É natural que político goste de bajulação e que sua imagem seja exibida ao lado de textos elogiosos. As investigações dos malfeitos que envolvem seu nome são vistas como rancor, mentiras e perseguição. Não são poucos os casos em que denúncias de desvio de conduta de gestores e parlamentares tiveram desfechos trágicos, sendo em 2018 três assassinatos e aumento de 50% em casos de violência não letal, segundo relatório da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). Foram 114 registros envolvendo 165 profissionais e veículos de comunicação no ano passado, todos depois de divulgarem críticas e denúncias contra autoridades políticas de suas regiões. Entre os agressores mais violentos estão militantes apaixonados, defensores dos seus venerados líderes. O mesmo relatório coloca o Brasil como um dos países menos seguros do mundo para jornalistas, ocupando a 10ª posição entre os 14 com pelo menos cinco casos de crime impunes. Entre os presidentes da república brasileira, Juscelino Kubitschek talvez tenha sido o mais tolerante e respeitador de todos, tanto que recebeu no final do seu governo um banquete oferecido em sua homenagem pela Associação Brasileira de Imprensa – ABI. Nos noticiários acerca desse evento, títulos como “O adeus de JK” com o destaque abaixo da foto: “Cinco anos de absoluto respeito à liberdade de imprensa”. O seu governo apesar do grande esforço para libertar o país do subdesenvolvimento, deixou a imprensa opinar livremente, informar livremente, criticar livremente. Críticas até exageradas, algumas excessivas e injustas. Mas, exageradas, excessivas ou injustas, puderam ser formuladas, tiveram livre curso, não houveram sanções nem guerra contra os meios de comunicação. No seu primeiro governo, de 1930 a 1945, o presidente Getúlio Vargas criou o DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda, instrumento de censura para controlar a mídia. Foi uma relação extremamente tumultuada de muitos conflitos, entretanto, foi justamente com a ajuda da imprensa que em 1945, o regime entrou em decadência e caiu. Antes, todos os meios de comunicação e de expressão, como teatro, cinema, música, cultura em geral foram submetidos à censura prévia. Nada diferente do que instituiu o AI-5, em 1968, quando a ditadura militar definitivamente passou a sufocar todos os contrários ao regime e qualquer tipo de liberdade de expressão. Não faz tanto tempo e o governador Leonel Brizola vivia em guerra constante com as Organizações Globo, particularmente com seu arqui-inimigo Roberto Marinho, o capitão do maior complexo de comunicação até hoje, no Brasil. O caudilho era um político preparado, tinha argumentos inteligentes, encantava o eleitor pela eloquência das suas palavras. Não lembro de vê-lo desequilibrado nos pronunciamentos com palavreado chula, postura incompatível para um líder público. A maior vitória de Brizola no embate contra os Marinhos aconteceu dois anos depois de requerer na justiça um direito de resposta. Foi a primeira vez na história da Rede Globo que seu poderoso dono foi criticado por longos minutos dentro do Jornal Nacional, na voz inconfundível do âncora Cid Moreira, em 15 de março de 1994, lendo um direito de resposta ganho na justiça por Brizola.