Nº 4227
Opinião

Marx e o marxismo cultural

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Por Paulo Memoria. jornalista e cineasta | Edição do dia 07/11/2019 - Matéria atualizada em 07/11/2019 às 06h32

Está na moda entre os segmentos de direita do Brasil, responsabilizar o “marxismo cultural” e o pensamento do filósofo alemão Karl Marx, por todas as mazelas que estamos vivendo no mundo atual. Será que é mesmo assim? Marx foi o teórico das ideias que construíram as bases do chamado socialismo científico, que viria mudar a história do século XIX, marcando o século XX e exercendo grande influência sobre as teorias filosóficas, sociológicas, políticas e econômicas neste século XXI.

A escola filosófica proposta por Karl Marx, teve como uma de suas principais pilastras de sustentação, a atuação do seu seguidor, Friedrich Engels, fundamental na consolidação do marxismo como corrente do pensamento mundial. Por isso Engels afirma, no prefácio de “Ludwig Feuerbach”, de 1888, que este escrito seria “o germe genial de uma nova concepção do mundo”. Marx entendia que deveria haver a superação do materialismo francês e o hegelianismo de esquerda. Neste caso, enquanto os indivíduos forem em busca do Salvador, conduzidos pelas circunstância, eles não se libertarão. Só com a cultura social isto será possível. Um bom filme que retrata este período da vida de Marx, é o “jovem karl Marx”, do cineasta haitiano Raoul Pecks, com August Diehl defendendo o personagem do então jovem filosofo, que foi lançado em 2017 Um livro fundamental para entendermos a evolução dos princípios defendidos por Marx e Engels é A Ideologia Alemã. Ali definiram a necessidade da luta política pelo socialismo e sua importância direta para o movimento operário. Este livro confronta Marx e Engels ao próprio passado hegeliano, em um ajuste de contas com a consciência filosófica da juventude. Estamos falando, em outras palavras, da crítica as correntes idealista e materialistas, entre mudar a consciência para revolucionar o mundo real de maneira prática. A teoria e a prática se complementam na perspectiva da ação revolucionária transformadora. Os filósofos entendem que a revolução não se limita a destruir a realidade dominante da antiga ordem social, mas que modifica a consciência do proletariado para criar a sua própria sociedade. No entendimento dos pensadores desta nova ordem, está só seria viabilizada se não houvesse opressão de uma classe sobre a outra. Só está consciência de classe teria força suficiente para promover a auto-emancipação das classes oprimidas. Chamaram a essa tese de “praxis” revolucionaria. Marx já defendia o caráter universal do proletariado, libertando-os dos conceitos que os mantinham oprimidos e explorados. Foi neste contexto que Marx e Engels escreveram o O Manifesto Comunista, no ano 1847, fundando uma corrente revolucionária que ficou meio despercebida, desde a publicação do Manifesto, em 1848, até o ano de 1852, que foram anos politicamente turbulentos. Este escrito, contudo, se tornou um dos mais importantes textos que fundamentam a teoria socialista até os dias atuais. É a síntese de todo pensamento que embasa a concepção marxista da história. No Manifesto Marx define o conceito da “luta de classes” como o motor que faz a história girar. Esta é a base da dialética, que antagoniza a liberdade da escravidão, o patrão do empregado, a burguesia do proletariado. A burguesia sempre exerceu um papel fundamental nos processos de cultura revolucionária, rompendo com as estruturas feudalistas, que aprisionavam o homem em mentalidades religiosas e políticas, em função da manutenção dos seus interesses materialistas objetivos. Seria isso o marxismo cultural?

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