ARTIGO
Monteiro Lobato e a gramática
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Monteiro Lobato, aos 13 anos, foi reprovado numa prova de Língua Portuguesa. Ele mesmo escreveu, lamentando-se: “A minha prova escrita foi boa e a oral também. Eu vi na prova uns seis rapazes que não sabiam nada, que me perguntavam tudo, e que colavam... serem aprovados. Na oral vi rapazes que diziam que ‘pouquíssimos’ era advérbio; ‘fortes’ não sabiam o que eram, saírem aprovados. E eu respondi tudo saí inabilitado”.
Esse fato, narrado pelo próprio Lobato, demonstra-nos a dificuldade de se dominar a técnica gramatical. Mesmo para alguém que se tornou, na vida adulta, exímio no trato com a linguagem, o juvenil Lobato ficou tão transtornado com a reprovação que, tempos depois, criaria uma fábula para o episódio, incorporado com poucas modificações, em 1931, ao livro Reinações de Narizinho: “As formigas depuseram na cova a defunta e começavam a cobrir o corpo de terra – quando apareceu, esbaforido, um besouro de sobrecasaca e chapéu canudo, com as tiras de um discurso na munheca. O ilustre figurão era o orador oficial do Instituto Histórico dos Escaravelhos, sábio de grande fama na Besourolândia, mas um peroba de marca. Principiou a falar, com citação de mil autores e muitas frases latinas. Falou, falou, e como não acabasse mais de falar, o louva-deus, impaciente, arrolhou-lhe a boca com um toquinho de pau”.
Lobato representou metaforicamente a figura do professor que o reprovara no personagem do besourinho presunçoso e chato, digno apenas de risos. A metáfora vai além de uma análise vingativa ao professor carrasco, tem a ver com o modo de se expressar de Lobato: essa história infantil registra a perseguição quase obsessiva do autor não só pela simplicidade, mas também por seu desprezo à complexidade gramatical da qual se servem os intelectuais para demonstrarem superioridade sobre as classes menos favorecidas economicamente. Lobato foi um intelectual que tomou parte em causas voltadas para a cultura, para a educação e para a produção artística; tornou-se diplomata, tradutor de obras universais e, deve-se destacar, o fato de ele ter dado valiosa contribuição ao mundo editorial. Como editor de livros, foi firme em suas convicções: quanto mais produzia livros interessantíssimos para a cultura nacional, menos dinheiro ganhava. O envolvimento de Lobato com a produção de livros era ideológico, ele insistia em lançá-los a ponto de não se importar com prejuízos financeiros. Além de uma vida cultural rica e intensa, Monteiro Lobato sempre voltava sua atenção para a simplificação das regras gramaticais; era a favor duma reforma ortográfica que deixasse a escrita mais próxima do modo de falar. E, com toda a sua criatividade literária, continuamente manteve perto de si um ajudante de gramática para auxiliá-lo nas revisões de seus livros. Quer dizer, o trauma daquele garoto de 13 anos o acompanhou na vida adulta. Não houve prestígio, esforço individual ou reconhecimento popular que lhe dessem segurança no trato com as regras gramaticais.