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Opinião

Olhos: abre alas das emoções

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Por Alberto Rostand Lanverly. presidente da Academia Alagoana de Letras | Edição do dia 30/11/2019 - Matéria atualizada em 29/11/2019 às 21h18

Conhecer lugares é de extrema importância para todas as pessoas. Conviver com diferentes hábitos é algo, não somente prazeroso, mas, acima de tudo, educativo. Dizem que conhecer novos ambientes é como frequentar salas de aula, sem paredes. É aprender, simplesmente olhando para cada elemento característico da região: uma rua, estátua, praça ou, simplesmente, um restaurante cujas brasas de seu forno não apagam há mais de quatrocentos anos.

Muitos poetas deixaram claro, em seus escritos, serem os olhos a janela da alma. Já andei muito na vida. Encantei-me com as gigantescas pedras do sertão, sobrepostas umas sobre as outras, estabelecendo equilíbrio digno da intervenção divina; Grandes rios, como o Ganges, o Prata, O Danúbio e o Singapura; Cidadelas primitivas como Konia, na Turquia, Machu Pichu, no Peru ou Marvão, em Portugal. Aos poucos, meus olhos foram me acostumando a conviver com grandiosidades, não esquecendo, contudo, de me mostrarem pequenos itens, quase despercebidos dentro de um contexto maior, mas, possuidores de uma fabulosa história, um importante capítulo da humanidade. Certo dia, cheguei à Basílica de San Pietro in Vincoli, em Roma, onde se encontra a estátua de Moisés, obra prima de Michelangelo. O trabalho ficou tão perfeito a ponto de, ao termino da escultura, em um momento de alucinação, o artista dirigir-se ao monumento, gritando: por que não falas? Não há palavras para descrever o que meus olhos me propiciaram, naquele instante.

Dali saindo, após poucos minutos de caminhada, deparei-me com o Anfiteatro Flávio, também conhecido como Coliseu por abrigar uma colossal estátua de Nero. O local se caracteriza por ser a história viva de uma época grandiosa do Império Romano, e ficou famoso por ser a sede de inúmeros espetáculos, como as lutas entre gladiadores, ou escravos e animais exóticos provenientes de outros continentes. Apesar de tudo isto, no itinerário que realizei, meus olhos não me deixaram negligenciar uma casinha acanhada, com lixo e vegetação crescendo em seu entorno, idênticas às que, habitualmente, encontramos às margens das estradas brasileiras, para reverenciar alguém que ali morreu. Dentro desta edificação, fechada por grades, uma estatua, em tamanho natural, de uma jovem trazendo uma criança no colo.

A seu lado, uma indicação: Papisa Joana. Busquei nos livros e fique sabendo que, teoricamente, Papisa Joana teria sido a única mulher Papa da história do catolicismo, substituta de Leão IV, que permaneceu no trono por, aproximadamente, três anos sendo sucedida por Bento III nos idos de 850 dC. É uma história controversa, pois, até a própria igreja achava que Joana era João VII. Contudo, por ter engravidado, foi descoberto seu verdadeiro sexo no momento do nascimento de seu filho, durante uma procissão, no meio da rua onde hoje existe o acanhado monumento. Cada dia mais me convenço de que meus olhos são, acima de tudo, o abre alas de minhas emoções. O verdadeiro norte de meu aprendizado.

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