Opinião
Odiss�ia argentina
HUMBERTO MARTINS * A história da Argentina, tanto quando a das demais nações da América do Sul, é repleta de problemas de toda sorte, tais como golpes de Estado, crises econômicas e políticas, instabilidades, etc., mas havia um diferencial: o país mantinha um desempenho econômico bem superior aos demais, proporcionando à sua população índices de educação, saúde e bem-estar social, consideravelmente superior aos vizinhos. A Argentina, nos anos 40, tanto quanto a maior parte das nações sul-americanas, estava, em matéria de relações exteriores, na esfera de influência de países mais importantes. Internamente, era controlada pelas oligarquias e abalada por golpes de Estado. Entre 1946 e 1952 do século passado, o coronel do Exército e líder popular Juan Perón conseguiu criar um grande movimento político e social que incluiu desde proprietários de terras e industrias até operários. Com o apoio de poderosos sindicatos de trabalhadores, estendeu os benefícios de contratos coletivos de trabalho, da seguridade social e da aposentadoria à maior parte da mão-de-obra. Por três vezes, Perón esteve à frente da Casa Rosada ? sede do governo argentino -, mas os governos iniciados em 1951 e 1973 não colheram os mesmos êxitos do inicial. Quando o caudilho morreu, no poder, em 1974, legou a presidência à sua segunda esposa, então vice-presidente, Isabelita. Sem o mesmo carisma da primeira mulher de Perón, Evita, Isabelita assistiu, impotente, ao país mergulhar no caos e ser abalado por um novo golpe militar. Ditaduras violentas e governos legalmente eleitos se sucederam, até a eleição de Carlos Menen, há 14 anos. Esquecendo sua origem Justicialista, Menen enveredou por um governo liberal, incrementou as privatizações e estabeleceu o câmbio fixo, valendo o peso um dólar. De início, dispondo de grandes empréstimos em moeda forte, conseguiu bons resultados econômicos. Mas a Argentina passou a viver um pesadelo quando, após a eleição de Fernando de La Rua, candidato oposicionista, integrante da União Cívica Radical, há três anos, os novos responsáveis pelos cofres públicos descobriram que o país não podia pagar os empréstimos que se venciam, nem ao menos resgatar os depósitos feitos pela população no sistema bancário. A crise foi tão séria que, após decretar o bloqueio desses depósitos, o presidente De La Rua teve que renunciar, sendo sucedido por Adolfo Rodrigues Sá e posteriormente por Eduardo Duhalde, que teve o mérito de conduzir a Argentina no pleito que elegeu Néstor Kirchner, em primeira votação. As pesquisas que favoreciam, de maneira esmagadora, o candidato apoiado por Duhalde, levaram à renúncia o candidato Carlos Menen e cancelaram o segundo turno do pleito. Os argentinos, conhecidos pelo seu ufanismo e euforia, são hoje um povo triste, deprimido e com poucas esperanças de recuperação. Tomara que o governo de Kirchner seja o primeiro passo de um processo de retomada do progresso e do desenvolvimento do nosso mais importante vizinho e parceiro comercial. A América Latina, induvidosamente, ficará mais forte com o surgimento econômico da Argentina. Brasil e Argentina são países irmãos e como tais, devem trilhar os caminhos do desenvolvimento e da justiça social, metas fundamentais para o equilíbrio institucional do continente sul-americano. A odisséia argentina, especialmente exemplificada nas complicações de natureza financeira com reflexos imediatos para o seu povo, em face da exorbitante dívida interna e externa, deve, também, servir de exemplo para os nossos dirigentes. Combater a dívida social é restabelecer o crescimento de uma nação. (*) é desembargador do TJ/Alagoas