Opinião
A distin��o
GILBERTO DE MACEDO * Palavra usada correntemente com múltiplas conotações, vários significados e sentidos, merece uma apreciação cuidadosa. Distinção é o resultado do ato de distinguir. Isto é caracterização das diversas formas da realidade: identificação das pessoas, dos acontecimentos, das coisas. Tem assim grande importância no reconhecimento dos fatos em suas infinitas manifestações: material, ideal, concreta, abstrata, física, mental, sólida, líquida, e gasosa. Assim leva ao esclarecimento do mundo. Se não se distingue, acontece, então, a confusão e a obscuridade. E isso, seja involuntariamente, por ignorância, seja voluntariamente, para atender interesses escusos, particulares. Distinguir é, assim, além de obra de conhecimento, também ato ético, num e noutro caso, de grande importância humana e social, sobretudo. De conhecimento, porque evidencia as diferenças e características que vão formar a ordem dos conceitos. Ato ético, porquanto permite o respeito à verdade. Assim diferencia as suas manifestações, separando-as. Na esfera humana, particularmente identifica as pessoas que são diferentes entre si. Os seres humanos são semelhantes, não-iguais. Mesmo os gêmeos univitelinos, iguais biologicamente, todavia, tornam-se desiguais se criados em ambientes diferentes. A igualdade humana dar-se, isto sim, no plano ético, através de leis que assegurem a todos o s mesmo direitos, da razão de se dizer que são ?iguais perante a Lei?. Distinguir, pois, não é artificialismo nem elitismo, sim, repetimos, identificação. É constatar características, revelar qualidades, definir formas, apreender a substância, definir o sentido, estabelecer o significado. Noutros termos, é separar o certo do errado, o belo do feio, o valor do desvalor, o talento da mediocridade, o justo do injusto, a verdade da mentira, o supérfluo do essencial, a coragem da covardia. Daí toda a razão de Grossman dizer: ?As uniões dos homens, suas razões, são determinadas por um único objetivo: conquistar os direitos dos homens a serem diferentes?. Ser diferente não é desdouro, mas qualificar, respeitar o que é, como é: o bom do mal, o sábio do ignorante, o criativo do copiador. A distinção é, portanto, uma necessidade. Como dizia o italiano Guiciardini: ?É um grande erro falar das coisas do mundo sem proceder as distinções... e essas distinções... precisam ser ensinadas pela capacidade de discernir caso por caso?. Por outro lado, Adenauer, inteligente político alemão, soube dizer, com toda precisão: ?Vivemos todos sob o mesmo teto, mas nem todos temos o mesmo horizonte.? Pois, o horizonte pessoal faz as diferenças entre os homens. A distinção, é assim, imperativo do conhecimento, sem predisposto de superioridade ou de inferioridade, sem predeterminação de ser melhor ou pior, como se viu no racismo, e noutros fanatismos. Formas de estupidez. Distingamos, pois, a realidade, a fim de identificar a verdade, e estabelecer a boa ordem na vida. Afinal distinguir é ato lógico, de grande importância para a organização existencial, seja para o próprio indivíduo na sua intimidade, seja para o comportamento nas sociedades, em suas diversas categorias e manifestações . (*) É MÉDICO