Opinião
De sonhos e de verdades
EDUARDO BOMFIM * Há alguns dias, a imprensa estampou a foto de Lula, ao lado do presidente da África do Sul, Thabo Mbeki. Conversaram longamente, sobre o combate à exclusão social e parcerias sobre desenvolvimento econômico entre as duas nações. O futuro é que pode indicar se este foi mesmo um encontro histórico. É preciso ressaltar que todos os analistas da área geopolítica consideram o fortalecimento entre os dois países como algo de grande importância para o futuro das nações emergentes. De resto, trata-se de um momento simbólico, porque o Brasil inicia uma aproximação com parte fundamental das suas origens, situadas no continente africano. Os próximos passos no mesmo sentido devem ser dados através dos povos daquele continente que possuem como base a língua portuguesa. A África é um continente rico, porém, massacrado pelas grandes potências. São considerados, nolinguajar dos técnicos e economistas, como pertencentes ao quarto mundo. Fome e pobreza endêmicas, conflitos entre etnias, provocados pelos exploradores, os tiranos locais, sempre mantidos no poder pelos antigos colonialistas e os atuais, de novo tipo. Sempre atentos à divisão entre os africanos, e, conseqüentemente, à desunião que perpetua a dominação. No entanto, bem recentemente, a esperança, a auto-estima, o orgulho destes povos, estiveram em alta. Era o período das lutas de libertação anticolonialista. Inúmeros países, outrora manietados, agregados pela força como pertencentes aos domínios de meia dúzia de outros, ditos civilizados, conquistaram as independências territorial e política. Apesar disso, passados alguns momentos de construção de caminhos próprios, os velhos colonizadores e o mais novo império econômico e militar da humanidade, os EUA, retomam os seus sórdidos papéis de exploradores. A derrota do neoliberalismo, enquanto doutrina, e a catástrofe que sobreveio, provocou uma tragédia social sem precedentes na história recente. Porém, na África, ela assumiu e ostenta aspecto de verdadeiro genocídio. Tentam-nos passar que o trágico destino do continente africano é algo meio determinista, como que a rivalidade entre tribos e etnias, fosse a sina maldita do esplendoroso continente. Esta é a versão dos colonialistas modernos, de novo tipo. Buscam fazer esquecer que, muito recentemente, este continente uniu-se e expulsou os verdadeiros bárbaros que os oprimiam durante séculos, através de lutas gloriosas de libertação nacional. Ensaiaram, e ainda persistem em alguns países, a justiça social avançada, com muitas dificuldades e contradições, é verdade. A África, de uma natureza exuberante, culta, resistente como um animal exposto ao sol inclemente, sem sombra, resiste. Lembrando-nos a frase de Euclides da Cunha, de que o sertanejo em condições assemelhadas, é antes de tudo, um forte. Eles precisam de aliados, porque de carrascos, já tiveram em abundância. Eis aí o papel indeclinável do governo Lula e da diplomacia brasileira. Até porque, se o Brasil é a 13ª ou a 14ª economia do mundo, é igualmente uma imensa África de negros, mulatos, miscigenados de todas as formas. São 50 milhões de brasileiros vivendo em condições subumanas. É fundamental a solidariedade recíproca, que faz a força. Nossa obrigação, e a do governo, é reconstruir os nossos sonhos. Assim como os versos do poeta africano Rui Mingas: ?Os meninos à volta da fogueira, vão aprender coisas e da verdade, vão aprender como se ganha uma bandeira, vão saber o que custou a Liberdade... E assim cantando à voltinha da fogueira, dizem palavras desse tempo sempre novo. Porque os meninos inventaram coisas novas e até já dizem que as estrelas são do povo?. Esta poesia-hino é tão nossa quanto da África e dos povos de todo o mundo em busca da libertação. Este é o caminho das mudanças que também buscamos para a nossa pátria. (*) É advogado