Opinião
Azeite, avozinha!
RONALD MENDONÇA * Machado de Assis dizia que ?o elogio não só faz bem à alma mas também ao corpo? e que as melhores digestões que ele conseguira teriam decorrido de jantares em que fora homenageado. Pessoalmente, nunca testei essa portentosa teoria psicossomática por dois motivos muito simples: o primeiro, pelo fato de jamais ter sido homenageado com algum tipo de refeição ? nem mesmo com roletes de cana em porta de hospital ? e o segundo, pela razoável saúde que o bom Deus me garantiu até agora. Não obstante, acredito que mestre Machado não iria desperdiçar seu tempo nem o de seus leitores com conversa fiada. Daí a angústia com a saúde intestinal dos nossos atuais dirigentes. Há 2 ou 3 dias, o líder do PT, Nelson Pellegrino, ficou acuado em Brasília, durante o protesto dos funcionários públicos contra as medidas que estão no forno do Congresso prontas para serem servidas sem açúcar e sem afeto. Mas o pior mesmo, foi o mau comportamento de alguns ativistas numa reunião da CUT em que o vaiado e insultado foi ninguém menos do que o próprio presidente Luiz Inácio. Imaginem se alguém pode confiar na fidelidade da plebe? Eleito com uma maioria acachapante, uma quase aclamação, Lula vem recebendo bordoadas por todos os lados, fato que poria em xeque a integridade do tubo digestivo de qualquer pessoa. Felizmente, o nosso presidente acostumou-se a comer o pão que o diabo amassou e não deve ser qualquer afronta que irá perturbar seus hábitos higiênicos. Por sorte, a equipe econômica tem um médico. Dentre outras finalidades, dr. Palocci talvez possa ajudar a lembrar de que a vida de médico é também uma gangorra. Se, por exemplo, um paciente grave começa a melhorar ficamos em estado de graça, sobram sorrisos e agradecimentos. Mas se há um retrocesso - ou o ?pior? - somos olhados com desconfiança e, não raramente, com hostilidade. Ainda assim, não se passaram nem seis meses (Brasília mal se livrou do cheiro de roupa nova suada e dos confetes da posse) e já temos mobilização. Queriam o quê? São oito anos de FHC e mais os meses do governo atual em que o funcionalismo só recebe maus-tratos. É duro esperar oxigênio e receber napalm. Embora Lula tenha decepcionado os servidores ativos e boa parte dos aposentados em geral, seu poder de seduzir congressistas tem superado as expectativas. Na visão dos entendidos, há uma maioria parlamentar que garante a aprovação de tudo que ele propuser. Diante dessa realidade iminente, resta aos servidores amargarem o desconforto de digestões cada vez mais suadas, até o dia em que os distúrbios se agravem e os levem a precisar de um médico. É aí que nós pagamos o pato. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL